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A Doação de Artur do Cruzeiro Seixas - Entrevista com António Cândido Franco

  • PT/AUEVR/CRUSEI/G/0001
  • Documento simples
  • 2025-09-27
  • Parte de Cruzeiro Seixas

Registo vídeo produzido no âmbito da Exposição "É Uma Vez: Artes e Visualidade na Universidade de Évora", curadoria de Filipe Rocha da Silva, inaugurada na Fundação Eugénio de Almeida - Évora, no âmbito das comemorações do Dia da Universidade - 1 de novembro de 2025.

Título: A Doação de Artur do Cruzeiro Seixas - Entrevista com António Cândido Franco
Argumento: Filipe Rocha da Silva
Realização e pós-produção: João Cordeiro
Assistente de realização e pós-produção: Teresa Maluenga
Produção: Universidade de Évora
Agradecimentos: Serviços de Biblioteca e Informação Documental e Escola de Artes da Universidade de Évora
Duração: 47m 40s
2025

Universidade de Évora

Entrevista a Ana Ourives

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Ana Ourives
Entrevistada: Ana Ourives (AO)
Entrevistadora: Maria Ana Bernardo (MAB)
Localidade: Vimieiro
Data: 25 de janeiro de 2024
Transcrição: Diana Henriques (20/05/2024)

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AO:
Ana Rosa Saias Galhardo Ourives, nasci na Casa Branca. E vim para o Vimeiro com três anos, morar para os montes. Os meus pais vieram trabalhar para cá e eu vim com eles e depois aqui ficamos até hoje.

MAB:
E que memórias é que tem de, como era a sua infância?

AO:
Ora, a minha infância era muito má, andava descalça, só comecei a ter sapatos quando fui para a escola que tinha sete anos. E depois era uns sapatos para tudo, não tinha melhores, nem mais ruins, e pronto, era assim a minha vida. Pobre mesmo, pobre. Nunca passei fome, graças a deus, mas quer dizer, mas era uma vida de pobre mesmo.

MAB:
E tem mais irmãos?

AO:
Tive mais dois irmãos, aonde tive um que morreu com doze anos, mentira, sete anos, eu é que tinha doze anos quando ele morreu. E depois tinha também o meu irmão, este que faleceu também agora, agora faz três anos e tenho a minha irmã, que é a mais nova.

MAB:
E como é que era a vida em casa, como é que era a mobília, o que é que tinham, o que é que não tinham

AO:
Que não tínhamos. Olha, tinha cama para dormir.

MAB:
Cada um tinha a sua cama?

AO:
Cada um não, eu dormia com a minha irmã, o meu irmão é que dormia sozinho e agora a gente as duas dormíamos juntas e pronto. E era, a mesa para comermos e as cadeiras e os mochos, que havia mochos na altura, e era essa vida assim. Nunca passamos fome, mas era sempre aquelas comidas dantes, comidas que agora pouco se usam até. Eram comidas de sopa de tomate, eram batatas com peixe, açordas, era migas, era essa comida assim.

MAB:
E viviam num monte e o teu pai tinha uma horta ou não?

AO:
Não, o meu pai enquanto morou no monte tinha uma horta, tínhamos couve, batatas que ele semeava e essas coisas a gente até tinha, mas de outras coisas de pão e manteiga vaqueiro, que era o que a gente tinha. O meu pai matava sempre o porquito e tínhamos então, a linguiça e nem havia muita carne grossa, era para dar mais, era linguiça e a farinheira, assada e cozida, toucinho cozido para fazer torradas, era mesmo esta vida assim.

MAB:
E quando foste para a escola já moravas aqui no Vimieiro ou vinhas do monte?

AO:
Morava no monte, chamado a Quinta do Formiga.

MAB:
E vinhas a pé para a escola?

AO:
E vinha a pé para a escola, também não era muito longe, era ali perto do convento. Era ali o convento de um lado e o monte era ali do outro e dali vinha a pé para a escola.

MAB:
E vinhas sozinha?

AO:
Não, porque vinha a Mariana e a Jacinta da Bita, a filha da Bita, vinham ter comigo, que elas moravam na Teja, vinham ter comigo ali à quinta, vínhamos às três para a escola. Ainda vim algum tempo sozinha, mas geralmente era com elas.

MAB:
E do que é que te lembras assim de brincadeiras de infância que fizesses, como é que era viver ali no monte, enquanto criança.

AO:
Olha, no monte enquanto criança eu tinha as minhas vizinhas e então havia uma grande cabana naquilo e a gente, as coisas que as nossas mães partiam, pratos, tigelas, qualquer coisa aproveitávamos. E dali fazíamos com terra umas divisões, que era a casa de cozinha, outra era o quarto, e compúnhamos com bocados de loiça partida.

MAB:
E brincavam às casinhas

AO:
E brincávamos assim às casinhas. Era, no tempo em que pronto, enquanto andava na escola ainda não é. Depois quando saí da escola fui logo para o trabalhinho, fui logo para o trabalho do campo. Fui a primeira coisa que fui, foi à monda, arrancar erva na ceara de trigo e depois dali continuei. Depois veio a monda, a ceifa, depois o meu pai tomava bocados de empreitada na ceifa, e eu ia com eles e ceifava aquilo que, se estava cansada ou se estava muito calor ia para debaixo da árvore descansar. E depois continuava quando me apetecesse e era assim.
E pronto, chegou-se a altura do Ribatejo, fui para o arroz ceifar, mas aí já tinha de ser a sério, já não era a brincar, já era quando queria, e lá me safei. E pronto, foi assim.

MAB:
E tinhas que idade quando foste para o Ribatejo?

AO:
Tinha doze anos

MAB:
Quando foste para o Ribatejo?

AO:
Quando fui para o Ribatejo. Tinha doze anos, porque eu quando comecei com os meus pais, eu ainda nem tinha os doze anos, acho que depois então é que eu fiz os doze anos em outubro

MAB:
E no verão seguinte?

AO:
E no verão seguinte fui para o Ribatejo

MAB:
A primeira vez?

AO:
Andei à azeitona primeiro. Primeiro andei à azeitona, os meus pais andavam varejando, ripando e eu apanhava a azeitona do chão, o restelo como se chamava e as saltonas, que saltavam tínhamos de apanhar tudo, era assim.

MAB:
E vocês iam todos os anos?

AO:
Eu todos os anos fui para o Ribatejo, até casar, fui para o Ribatejo.

MAB:
Todos os anos iam para o Ribatejo, não era? Era o vosso caso ou não?

AO:
Eu fui todos os anos para o Ribatejo

MAB:
Iam fazer campanha de trabalho

AO:
No Ribatejo, a ceifar

MAB:
Mais ou menos quantos meses?

AO:
Não me recorda bem, chegava a ser quase dois meses pois.

MAB:
A ceifar?

AO:
Acabávamos num patrão, o meu pai logo ia ver de outro, íamos para outro, às vezes chegávamos a ter dois patrões, às vezes era só num arrozeiro, mas geralmente era assim, pronto.

MAB:
E porque é que iam para o Ribatejo, Ana?

AO:
Íamos para o Ribatejo, porque na altura que era de ceifar o arroz, aqui não havia trabalho.

MAB:
Aqui no Vimieiro?

AO:
Aqui no Vimieiro não havia trabalho e então, íamos sair, geralmente muita gente saía assim. E era isso.

MAB:
Tens ideia de muita gente aqui do Vimieiro fazer esse tipo de vida?

AO:
Tanta gente, a gente chegava a ir, eu cheguei a andar com um grupo aqui do Vimieiro e nem só, não é. Eu cheguei a andar com grupos aqui do Vimieiro de dez, quinze pessoas. E mais outros de outros sítios que vinham também, assim.

MAB:
Que iam para o Ribatejo?

AO:
Que iam para o Ribatejo. Cheguei a ir também para a azeitona para Santarém, mas aí já era mais velha, aí já tinha mais quinze anos ou dezasseis talvez, não me recordo bem, para Santarém para a azeitona também. Porque aqui também havia azeitona não é, mas como era para mais tempo e saíamos assim. O meu pai saíamos e íamos para o Ribatejo e íamos para Santarém e isso. Cheguei também a andar ao tomate no Ribatejo. Andei foi no arroz, no tomate, de empreitada até a apanhar à caixa.

MAB:
E lá, como é que é era a vida lá no Ribatejo? Onde é que ficavam, que condições de vida

AO:
No Ribatejo ficávamos num grande barracão e ali tínhamos um pau a dividir as camas e dormíamos assim todos seguidos.

MAB:
As famílias dormiam todas

AO:
Todas. Juntava-se a parte de mulher com mulher, o homem com homem. Os solteiros eram para outro sítio, que era para dormirmos ali todos que éramos solteiros, solteiras ou solteiros, não é. Mas era assim. E era ali tudo seguido que não havia distinção, se não um pau no meio e a cama era de palha de arroz, e com roupa que nós levávamos não é, para fazer a cama, cobertores ou

MAB:
E quando precisavam de lavar roupa e essas coisas como é que faziam?

AO:
Havia no Ribatejo

MAB:
E a higiene, não é

AO:
Isso, olha, lembro-me tão bem. A gente haver lá perto uns montes caídos e nós tínhamos alguidares grandes que nós levámos e íamos para lá para esses coisos tomar banho, ficavam algumas a tomar conta, não viesse alguém e nós outras lavamos assim. E depois até havia os canais de água ou havia ribeiras ou isso e nós íamos lavar a roupa para aí assim e púnhamos a enxugar.

MAB:
E a cozinha como é que faziam?

AO:
A cozinha, olha, era quase como a gente além, cada um tinha a sua panela, fazia-se um lume grande e ali é que se punha a comida a fazer. Raro acontecia não ser em panela de barro, mas tinha era uma sertã. Os meus pais, pronto, aquilo era uma sertã dava a volta para fazer umas migas, ou uma sopa de tomate, ou isso. E era aí isso que se fazia.

MAB:
Entretanto, foste crescendo e trabalhavas

AO:
Sempre, trabalhando.

MAB:
Começaste a namorar também.

AO:
Comecei a namorar

MAB:
Com que idade?

AO:
Dezoito, eu comecei mais cedo, mas aos dezoito anos é que comecei mesmo a namorar, que o meu marido ia então falar comigo era aos dezoito anos. Ainda cheguei a andar no Ribatejo, com dezassete e ele para me ir ver, abalava de bicicleta e ia ter onde a gente andava, que ele também andava, ele também andava no Ribatejo, que era noutros sítios. E depois ia ter onde a gente andava, só para vermos.

MAB:
Só para se verem, porque com dezassete, ainda não tinhas autorização.

AO:
Nada, só aos dezoito é que eu comecei a namorar mesmo.

MAB:
E era porque antes dessa idade o teu pai não dava autorização?

AO:
Não dava autorização, achava muito nova para eu ir, para eu já namorar, com dezassete anos não podia namorar ainda. Aos dezoito anos foi porque eu lhe pedi mesmo. Pai olha eu tenho mesmo

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AO:
Eu quero mesmo namorar, eu já tenho dezoito anos e tens de me dar autorização para eu falar com o meu namorado. E então aí é que ele, de má vontade, mas deu-me autorização para ir para a janela.

MAB:
Namoravas à janela?

AO:
Namorei à janela, pois.

MAB:
Notaste alguma diferença na atitude do teu pai, por comparação do teu namoro com a tua irmã mais nova?

AO:
Sim, muita diferença. A minha irmã já tinha uma liberdade muito diferente da que eu tive.

MAB:
Para namorar?

AO:
Para namorar. A minha irmã já, eu namorei sempre à janela, se tinha calor ou não ia para a janela, porque coiso, não namorava, pronto esperava que tivesse sombra, mas ele não podia entrar nem no quintal. Não entrava, porque a minha janela era lá, tinha lá à frente, entrava assim. Já a minha irmã já tinha a liberdade de poder ir para outro sítio e, na rua à mesma, no quintal, mas ir namorar com ele, lembro-me dela, tinha lá um tanque a minha mãe, e eles sentavam-se no tanque a namorar.

MAB:
Porque é que tu achas que o teu pai mudou assim de atitude, de ti que eras mais velha para a tua irmã?

AO:
Que era mais nova. Eu acho que ele que na altura, penso eu que era por isso, ele, a minha mãe coitadinha a mãe morreu-lhe cedo e depois ele, ela estava à de uma irmã, não é porque não tinha a mãe, então ele se calhar namorava quando queria, ajuntava-se com ela e estavam quando queria. Tanto que eu não sou de nove meses, eu, os meus pais arranjaram-se antes de se juntarem. Juntaram-se depois quando eu nasci. E então o meu pai, se calhar tinha receio, não fizesse eu o mesmo. E cá eu, era o que eu pensava. Que eu cheguei ainda a dizer-lhe: Ó pai, eu não vou fazer o mesmo que você fez e então pode andar descansado, esteja descansado com isso, porque eu não vou fazer o mesmo que você fez. E pronto foi assim.

MAB:
E então achas que quando foi a tua irmã, que já era mais nova

AO:
Eram outros tempos, já era outra liberdade, já podia sair mais. Eu para ir a um baile ou uma festa, uma coisa a minha mãe tinha de ir comigo, eu não podia ir com outra pessoa, ainda assim. E pronto foi isso. E a minha irmã já tinha outra liberdade, já podia ir.

MAB:
Já era mais tarde?

AO:
Já podia ir com outra pessoa, já podia estar com ele ao pé ou qualquer coisa e eu não. Nunca tive essa liberdade.

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MAB:
E foi um namoro longo ou não?

AO:
Foi, foi ainda um namoro longo, foram cinco anos e meio, porque ele foi para o ultramar e esteve lá dois anos no ultramar e depois quando veio, ainda falamos um tempo é que depois decidimos então casar. Tinha vinte e quatro anos.

MAB:
Tinhas vinte e quatro anos.

AO:
Pois

MAB:
E resolveram casar nessa altura, com vinte e quatro anos e não esperarem mais tempo ou não terem casado antes porquê? Acharam que aquela é que era a altura certa?

AO:
Achamos que é que estava na altura, porque já tinha vinte e quatro anos e estava na altura para mudar de vida e pensava que ia ser uma vida melhor e mudou um bocadinho, mas também não mudou. Como eu depois comecei mais tarde a mudar então, como eu não tinha o meu pai, mas tinha o meu marido que ainda me passava muitas regras.

MAB:
E ainda foram trabalhar?

AO:
Ainda fomos para o Ribatejo. No primeiro ano de casados ainda fomos para o Ribatejo.

MAB:
E quando casaram foram para uma casa vossa ou para uma casa à renda?

AO:
À renda, fomos para uma casa à renda. Lá ao pé da escola, lá em cima, e então depois fomos para uma casa à renda.

MAB:
E levavas enxoval?

AO:
Levei. É claro, um enxoval de pobreza, não foi grande enxoval, mas geralmente tudo o que era necessitado, de lençóis, a cobertores, a toalhas, a isso geralmente a minha mãe arranjou-me tudo. Serviço de jantar, não era bom era ruim, serviço de vidros, não era bom era mais ruim, mas levei isso tudo.

MAB:
E quando era solteira e estavas a trabalhar, aquilo que ganhavas era para ti ou era para os teus pais?

AO:
Era para a casa, aquilo que eu ganhava era para a casa, só que depois quando ia para o Ribatejo, fazia-se horas e essas horas era para mim. Os fins de semana, que eu fizesse é que o meu pai, me dava esse dinheiro para mim também. Era o que tinha era isso, era das horas, porque a gente chegava a largar a uma certa hora, e depois no fim jantávamos e isso e ainda íamos fazer duas ou três horas até à meia noite, íamos trabalhar e nessas horas que pagavam, era mesmo para mim esse dinheiro. E os fins de semana que eu trabalhava, o meu pai dava-me esse dinheiro.

MAB:
Ainda foste para o Ribatejo, depois de casares, muitos anos?

AO:
Não, não. Foi só já um ano. Depois de casar já só fui um ano, já para o Ribatejo. E depois aí já pronto, arranjei trabalho. E a seguir também veio e arranjei a minha filha. E depois veio a cooperativa. Depois começou a cooperativa e ele foi para a cooperativa e eu tive a minha filha e fiquei em casa ainda um tempo, e depois foram só homens na altura e depois quando foram as mulheres, eu fui também. Deixei a minha filha com uma pessoa amiga, ficava-me com ela, eu dava-lhe um tanto e foi assim.
E depois mais tarde, a minha mãe deixou ela de trabalhar, ela também tinha muitos problemas e ficou-me ela com a minha filha.

MAB:
Porque é que tinhas de deixar a tua filha, ou com uma pessoa amiga ou com a tua mãe?

AO:
Porque só o ordenado do meu marido não dava para pagar uma renda, para comermos e sustentarmos a bebé, não é.

MAB:
E não tinhas outro sítio onde a deixar se não

AO:
Não, se não aí. Depois ficava assim com essa pessoa. Também ainda ficou com a tia do meu marido também, mas foi pouco tempo e depois a minha mãe, ela andava sempre doente também e o meu pai começou-lhe a dizer: então deixas tu de trabalhar, ficas. E depois ela reformou por invalidez e então ficou ela a tomar conta da minha filha.

MAB:
Lembras-te de que ano é que foste trabalhar para a cooperativa?

AO:
Não me recordo, mas sei que eu que estava com a minha filha, que ela era pequena quando começaram a organizar isso das cooperativas e então o meu marido foi, e depois ainda demorou, mas eu não sei já, não me lembro. Não me lembro, não.

MAB:
E mesmo ainda antes de ires para a cooperativa, lembras-te de como tomaste conhecimento que estava a acontecer uma coisa, que era uma revolução…

AO:
Quando eu tive noção de estar a ser a revolução do 25 de Abril, eu não sabia nada, eu não tinha televisão, eu não tinha nada e depois, foi uma vizinha, é que me disse que estava a ser isso da revolução. Eu até tive um bocado de receio, pensei que alguma coisa ia surgir mal, mas graças a deus então não. Foi aí que veio o 25 de Abril.

MAB:
E foste vendo pela televisão?

AO:
Depois, vendo pela televisão, mas foi pelo que a minha vizinha me chamou para eu ver, porque eu não tinha televisão, não tinha nada.

MAB:
Depois aqui na vila, no Vimieiro, como é que começaste, começaste a notar assim a pouco e pouco alguma coisa de diferente, que estavam a fazer aqui, daquilo que te recordas, relacionado como 25 de Abril?

AO:
Sim, depois começou a mudar tudo. As pessoas a mudarem também, com a liberdade. E foi aí que tudo começou a mudar um pouco. E começou, das cooperativas, mas eu não me lembro de maneira nenhuma. Eu não me lembro mesmo.

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AO:
O meu marido então aí comprou a televisão, porque nós, eu não via nada. Era só aquilo que ouvia às outras pessoas, porque eu não sabia mesmo diretamente notícias. Eu não sabia notícias nenhumas, pois só por aquilo que ouvia. Isso era mesmo. Depois bem mais tarde é que começaram então a haver mais, as televisões, o meu marido comprou uma a branco e preto, nem era e foi assim a partir daí, começamos a ver.

MAB:
Ou seja, foi já depois do 25 de Abril que tiveste a primeira televisão?

AO:
E bem. E foi bem.

MAB:
E outras coisas de conforto para a casa?

AO:
Ó, então quer dizer, eu quando casei até levei, pronto, a mobília de cozinha, a mobília de quarto e até de casa de jantar, até tinha de casa de jantar também, mas não tinha sala.

MAB:
E tinhas fogão a gás já?

AO:
Tinha fogão a gás já, porque com as prendas que me deram do casamento comprei o fogão a gás, porque eu quando casei, nem levei logo fogão, mas como deram algumas prendas em dinheiro e aí, nós fomos comprar o fogão. Nem tinha frigorífico, também não, também depois nós fomos trabalhar e então aí é que compramos o frigorífico também. Pois, mas foi tudo já a seguir a eu ter casado é que foi que compramos isso, geralmente agora tudo leva, não é? Mas na altura eu não. O fogão é que foi comprado com esse dinheiro, porque já não deu para o frigorífico, que eu não recebi assim grandes prendas, mas pronto, o fogão ainda foi.

MAB:
Casaste por igreja?

AO:
Por igreja, sim, sim.

MAB:
Depois vieram então as cooperativas

AO:
Depois mais tarde, que eu nem sei, não me lembro.

MAB:
E tu foste trabalhar para a cooperativa?

AO:
Eu fui trabalhar para a cooperativa, tive de deixar então a minha filha, foi na altura em que eu a deixei, com aquela pessoa amiga e pronto, fui então para a cooperativa.

MAB:
E mais ou menos, quantos anos é que trabalhaste lá na cooperativa?

AO:
20 anos.

MAB:
Até ao fim da cooperativa?

AO:
20 anos, até ao fim da cooperativa, porque depois tinha terminado e depois houve alguns, onde era o meu marido, também ficou, ainda continuou mais algum tempo. E então foram aí 20 anos.

MAB:
Foram 20 anos. Que diferenças é que tu achas, entre trabalhar na cooperativa e trabalhar para os patrões?

AO:
Muita diferença, porque a gente ali tinha de trabalhar, não é verdade. Que era para aquilo, ver se dava alguns resultados, não é, para se ter algum ganho com aquilo. Mas nos patrões era muito diferente, do que na cooperativa, não é. Mas pronto, trabalhar a gente tinha de trabalhar mesmo, mas era diferente.

MAB:
E trabalhavam todo o ano ou algumas vezes ficavam em casa?

AO:
Primeiro, geralmente, a gente trabalhava quase todo o ano, mas depois houve altura em que não havia assim mais trabalho e ficávamos no desemprego.

MAB:
Já na fase final?

AO:
Ficávamos então no desemprego e pronto, era assim.

MAB:
E daquilo que te recordas, chegaram a trabalhar nas cooperativas famílias inteiras?

AO:
Era eu e o meu marido e as outras pessoas também.

MAB:
Famílias o casal

AO:
Também. Até depois acabou com a minha sogra e o meu cunhado ainda foi para lá para a cooperativa também. Não tinham trabalho e então lá precisavam, e meteram para lá e eles ainda foram, a minha sogra e o meu cunhado, mais novo, mais novo não que mais nova é a minha cunhada, mas eles ainda foram os dois. Não, ela também andou. Mas depois também casou e foi para o estrangeiro, para arranjar uma vida melhor, como ainda lá se encontra, no estrangeiro.

MAB:
E no teu caso Ana, quando a cooperativa acabou, tu ainda estavas em idade de trabalhar?

AO:
Sim

MAB:
Como é que foi, o que é que aconteceu?

AO:
Então, quando acabou a cooperativa, eu tive de procurar patrão e fui para o patrão, que era o Diamantino. Ele fazia tomate, ele fazia pimentão e foi para aí trabalhar e ainda andei, sem ser por conta deles, por outro patrão, que era o Manuel Aldeias, que ainda andei lá a trabalhar. E pronto. Depois, mais tarde, fui então, que já não faziam a plantação de tomate e de pimentão e fui trabalhar para a câmara. Andei na câmara, a trabalhar foi aí até depois reformar.

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MAB:
Quando o teu namorado teve de ir para o ultramar, o que é que tu achaste que era aquilo, como é que encaraste?

AO:
Quando o meu namorado foi para o ultramar, eu pensei que ia para a guerra, que ele tinha de ter muita sorte para ir e vir, com bem, porque havia muitos que lá ficavam. Mas graças a deus ele foi e veio com bem.

MAB:
E aí escreviam-se, como era?

AO:
Escrevíamos. Era, geralmente, assim que lá recebia. Ele é que me escreveu de lá para mandar a direção, não é, e depois eu respondia. Ele quando lá recebeu, respondia novamente, e foi assim que passamos esses dois anos, ou dois anos e qualquer coisa que eu acho que ainda foi dois anos que ele lá esteve. E depois ele mandava-me fotografias, e eu mando algumas de cá também, para ele não me esquecer, porque eu tinha mesmo ali a ideia que eu gostava que tudo corresse bem, para que um dia fizéssemos vida. E assim foi.
Sempre separados, mas pronto. Ele sempre, nunca pensou noutra coisa se não em mim, dizia ele, eu também pensava era nele. E depois não ia a festas, não ia a nada, porque ele estava no ultramar e foi assim esses dois anos que passei, mas não depressa, pois. Valeu a pena, que ele graças a deus, foi e veio com bem e pronto, temos feito a vida juntos, com uns altos e baixos, não foi só com altos, também com algumas baixas, pois.

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MAB:
Depois do 25 de Abril, e no que diz respeito à vida das mulheres, que era a vida em casa, que era vida às possibilidades de saírem, achas que, foste notando algumas diferenças?

AO:
Algumas diferenças sim. Porque mesmo o meu marido, era mesmo daqueles homens mais antigos, ainda hoje ele é um bocadinho, mas mudou muito, mesmo depois com as minhas filhas e tudo, saíamos a bailes, festas e tudo. E a liberdade começou a ser outra, que ele nunca me proibiu de nada, vamos lá, se até hoje eu não saio é porque não quero, porque ele nunca me proibiu de sair, nem nada. Então pronto, a liberdade das mulheres começou a ser outra também, porque por outro lado tinha entrado o 25 de Abril e nós também queríamos liberdade, para a gente, não é.

MAB:
E daquilo que te lembras no trabalho da cooperativa, achas que as mulheres também quando achavam que deviam falar, falavam ou eram mais caladas? Ou só os homens é que discutiam?

AO:
Quer dizer, os homens no início, os homens é que dispunham mais e coiso, mas a gente também tinha a nossa liberdade de dar opinião, mas eles é que eram os que mais, pronto. Mandavam e coiso, mas nós depois também começávamos, começaram tínhamos a liberdade de poder dar a nossa opinião. E então quando foi mais para o fim, já a gente se opunha também, para termos também direitos, mais ou menos como eles. Alguns direitos não é, porque ainda era diferente. O ordenado deles era um, o deles era outro, os ordenados não eram iguais, mas pronto, foi indo assim.

MAB:
E aqui no Vimieiro, tens essa ideia de que as mulheres foram, a pouco e pouco, a sair mais

AO:
Sim, a sair, antes ninguém ia assim ao café. Eu também não vou, nem fui, raro, mas geralmente começou logo tudo mais a sair, a ir ao café, a sair. A liberdade começou logo a ser outra.

MAB:
E em relação às tuas filhas, notas que elas já tiveram uma vida bastante diferente?

AO:
Muito diferente, muito diferente. Muito diferente, mesmo da que eu tive, pois. É diferente.

MAB:
Elas foram estudar?

AO:
Sim

MAB:
As duas foram estudar?

AO:
Quer dizer, estudar até ao décimo segundo, foi até aí que estudaram. A Fátima não, que a Fátima lembrou-se de pôr a namorar e depois não quis estudar mais, essa saiu com o nono ano, mas agora já fez depois de adulta, já fez o décimo segundo também.
A Sandra essa é que fez logo o décimo segundo, pois.

MAB:
Lembras-te de ir a algumas manifestações, a reuniões de sindicato?

AO:
Depois do 25 de Abril, de andar a trabalhar na cooperativa, haviam aquelas manifestações e nós íamos também a manifestações, a favor de nós, porque eles não queriam que a gente apanhasse as terras e isso. E fomos muita vez, assim a manifestações, pois. Até ali quando foi na Lorita, não me lembro, que depois os patrões até expulsarem ali os trabalhadores.

MAB:
Ou seja, foste ainda quando foi já na fase da entrega de terras aos patrões, foste ainda a algumas dessas manifestações?

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AO:
Quando foi aí já na entrega, de entregar aos patrões e então lembro-me ainda de a gente ir e os patrões a quererem as terras e nós a não querermos que eles a recuperassem e então quer dizer, que depois, ainda houve aí alguns problemas. Ainda houve alguns problemas, que eles ainda levavam, alguns ainda a quererem atiravam. Chamavam a GNR, depois ainda atiravam tiros para o ar, não era para as pessoas, mas houve ainda sítios onde ainda mataram algumas pessoas. Em Baião e em Montemor, também, ainda houve onde as pessoas tivessem ficado mal com isso, porque ainda mataram pessoas, mas depois aí, começou a ser, geralmente, tudo a recuperarem, a recuperarem até que nós tivemos que ficar parados, porque tínhamos menos poderes.

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AO:
Quando foi na fase das entregas, nós íamos, mas tínhamos medo, porque os guardas, não é, andavam só ali tudo contra a gente e nós, eram capazes de atirar, que ainda morreram algumas pessoas. E nós tínhamos medo sim. E tínhamos, às vezes, de acabar por fugir à frente deles. Íamos para o reboque e abalávamos de lá, porque a gente estava com muito medo daquilo e fomos para o reboque, para não sermos atingidas por tiros, também. Que eles podiam mandar e apanhar a gente.

MAB:
Lembras-te de quando foram as primeiras eleições? Foste votar?

AO:
Fui, fui sempre votar. Agora é que não vou.

MAB:
Mas até agora tens votado sempre ou não?

AO:
Agora, quer dizer, eu quando começaram as eleições, eu sempre fui votar, mas agora há um ano ou dois que eu não vou. E eu, está lá como outro, a gente vai votar e não vota para onde eles querem e depois eles fazem o que quiserem à mesma, e eu pensei, vou votar, não me serve de nada o meu voto, agora não vou votar.

MAB:
E quando foi, se te recordas dessas primeiras eleições, as pessoas eram muito, eram assim

AO:
Eu acho que ia tudo, geralmente, ia tudo. Ia tudo dar o seu voto. Agora para ultimamente é que acho que ia já sempre faltando, sempre pessoas que não iam, onde eu também não ia.

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AO:
Eu acho que depois dos 50 anos do 25 de Abril que mudou e para as mulheres então, que foi a mudança mais ainda foi com as mulheres. Que temos mais liberdade e pronto, que tudo, eu acho que valeu a pena.

MAB:
E achas que a generalidade das pessoas tem melhores condições de vida?

AO:
Têm melhores condições, embora isto esteja muito mau agora, porque é só a aumentar, a aumentar e ordenados completamente, estão na mesma, as reformas, também como eu já estou reformada e o meu marido, também não têm aumentos assim, e então quer dizer que isto agora também não está numa fase muito boa.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Entrevista a Francisca Ramalho

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Entrevista Francisca
Entrevistada: Francisca Passarinho Ramalho (FR)
Entrevistadora: Manuela Oliveira (MO)
Localidade: São Manços
Data: 13 de dezembro de 2023
Transcrição: Diana Henriques (17/01/2024)

FR:
Eu chamo-me Francisca Rosa Passarinho Ramalho, nasci num monte, que era o Monte das Courelas, pertencia a São Manços. Fui batizada na igreja de S. Manços, casei na igreja de S. Manços e batizei os meus filhos em S. Manços, todos em S. Manços. Os meus filhos quando tinham um mês eram batizados e éramos católico e pronto.
O meu pai era pastor, a minha mãe trabalhava na agricultura. Fiz o tempo de escola na Perolivas, o meu pai era pastor naquela altura andava para aqueles lados, fiz a escola nas Perolivas, andei cinco anos à escola. E hoje tenho a quarta classe que fiz em adulto, mas tudo o que aprendi na escola me lembro à mesma, tenho ideia nas coisas todas e então olha, é assim.
Tinha três irmãos, éramos três irmãos. A minha irmã morreu com covid, mais nova do que eu sete anos, tive aquele grande desgosto também, da minha irmã partir assim. À uma era minha irmã e foi uma coisa sem a gente esperar e agora tenho um irmão, é assim.
Os montes, vivi lá até aos dezanove anos. Com dezanove anos juntei-me, com o meu marido, vivemos quase cinquenta anos, ele depois faleceu e agora sou viúva. Quando, logo quando casei fui para um monte também, para o Monte do Gavião. E depois vim para aqui para S. Manços, morava aqui em S. Manços, os meus filhos nasceram aqui e foram à escola, andaram aqui à escola. Era muito diferente de agora, o meu filho, comecei a trabalhar tinha ele cinco meses, quando comecei a trabalhar, agora tem 48. E era diferente do que é agora. No tempo da minha filha, não havia creche ainda, não havia creche ficava com a avó, para ir trabalhar. Agora é que já há creche, a creche também é bom porque os pais vão levar além os filhos e estão descansados e a gente naquele tempo não, os filhos andavam a bem dizer aos empurrões, coitadinhos. E é assim.
Quando vim morar para a aldeia também não tinha, quando vim morar para a aldeia não tinha, não tinha casa de banho, não tinha água canalizada, íamos além abaixo ao chafariz à água com os cântaros. Levava os cântaros aqui ao quadril e íamos buscar cântaro a água além. Não tinha luz e quando comecei a ter luz, foi quando nasceu o meu filho mais novo, até essa idade não tinha, em 75 é que foi quando comecei a ter luz, mas não tinha água em canalizada, era só ainda luz. E com a água canalizada sei lá, já foi mais tarde quando comecei a ter água canalizada. E a casa de banho também não era como é agora, também era, tínhamos de dar banho dentro de um alguidar, púnhamos a água dentro de um alguidar e lá dentro é que se banhávamos. E outras vezes era mesmo sem ser ao pé de lume pois, raramente era ao pé de lume, pois.
Andava eu a trabalhar ao pé de Vendas Novas, num tomatal. Andava lá a trabalhar e depois, dia 24 de abril deitamos sem sabermos de nada, não é. Dia 25 de abril levantei-me, não tinha televisão, não tinha água canalizada, não tinha nada disso, só tínhamos uma telefonia. E aquela telefonia não dava nada, mas o que é que a telefonia hoje tem que não dá nada? Era porque tinha sido o 25 de Abril. Depois vieram umas senhoras que trabalhavam no tomatal, que eram das Cortiçadas de Lavre e disseram, hoje não há nada que foi o 25 de Abril, foi o 25 de Abril, foi o 25. Ninguém, quem é que sabia o que tinha sido o 25 de Abril? Ninguém sabia o que tinha sido o 25 de Abril. Fomos todos para debaixo de uma azinheira, onde era o trabalho do tomate, tavamos aí todos. Ai mas e foi o quê? Ai foram os soldados que fizeram o 25 de Abril, os comandantes que se juntaram, ai, mas ninguém sabia o que aquilo era. Depois chegou o dono do tomatal e quando saiu do carro levantou os braços para o ar e disse que estava connosco, a gente ficou a ver aquilo, sem saber mais o que era aquilo. Depois ele disse que estavam com a gente e pois começamos a trabalhar, começamos a trabalhar e, depois começaram a haver manifestações em Vendas Novas, o meu marido ia às manifestações, eu ficava, fiquei no monte.
E a gente ouvia dizer que era aquilo e foi assim que foi o 25 de Abril. E a gente o que é que será o 25 de Abril? E dizia-se assim, ai foi o 25 de Abril e isto arma-se aqui uma guerra uma coisa. Andava com medo daquilo. Fiz o tomatal todo, fizemos o tomatal com o 25 de Abril, com as manifestações, aquelas coisas. E quando acabei o tomatal voltei a S. Manços, vim para a minha casa, acabou-se o tomatal vim para a minha casa. Vim para a minha casa com aquele medo, tive sempre medo, de pensar que isto ia para pior e ia para pior. Foi o 25 de Abril, dia 13 de abril morreu o meu filho. Quando morreu o meu filho, tive aquele grande desgosto e só pensava no desgosto, e não ligava ao 25 de Abril.
Fui indo, arranjei o meu filho mais novo. Depois foi em 75, também em meteu muito medo esse dia, porque foi o 25 de novembro e dia 28 de novembro tive o meu filho. Tive de ir para o hospital para ele nascer e lá estava com muito medo, não havia jornais. Eu estava desejando de sair daquele hospital com aquele medo, mas lá se foi passando e não houve assim nada, graças a deus. Graças a deus, mas depois comecei a estar.
Depois começaram as ocupações da terra, começou a cooperativa, começou a cooperativa, começaram as ocupações da terra. Tive o menino, estava com o menino, estava com o desgosto do outro me ter faltado. O meu marido já lá trabalhava na cooperativa e eu estava em casa, em abril de 1977 se calhar, foi quando comecei a trabalhar na cooperativa. Aí a cooperativa já não era tão boa, como quando começou, já era as entregas das terras, aí esse bocadinho já foi pior, foi quando eu entreguei na cooperativa. Lá se passou, com muitas coisas. Depois trabalhei o ano inteiro, trabalhei o ano inteiro e não me quiseram meter efetiva, tive de estar em casa um mês sem trabalhar. Sem trabalhar, puseram-me no desemprego aquele mês, para não passar a efetiva. E trabalhei lá, não sei bem quanto tempo trabalhei lá, trabalhei lá uns aninhos, até que fui para um monte. Quando fui para um monte deixei de trabalhar, estava só no monte e eu e o meu marido trabalhávamos lá no monte e estávamos os dois no monte. A minha filha já estava casada, já tinha as duas netinhas mais velhas e tinha o meu filho comigo lá no monte. O monte era além para o lado da Vendinha, entre o Ramalo e a Vendinha, o Ramalo de S. Manços e a Vendinha, o monte era no meio e era aí que eu estava com o meu marido e o meu filho. E a minha netinha, quando eu fui para o monte, a minha netinha mais velha foi comigo e disse assim: Avó eu vou para o monte não é para ir e voltar, venho para fazer vida, venho para fazer vida no monte. Gostava, mas depois foi para a escola e teve de vir para a aldeia para a da mãe, para vir à escola. Trabalhava lá no monte, fazia manuais, na horta, tinha animais, tinha muitos animais, tinha cabras, guardava, ordenhava as cabras, fazia queijos, era assim a vida do monte.
Trabalhava na vinha, trabalhava na vinha, o mais do tempo era na vinha. Mas quando chegava à altura da sementeira, ia também para a sementeira. Não íamos todas, mas a mim como eu andava lá todo, o ano inteiro a bem dizer não é, calhava-me essas coisas todas. Ia apanhar pedra, quando fazia falta, ia apanhar pedra, ia caiar, ia caiar os montes da fundação, caiava os silos. Fazia isso tudo. E na sementeira andava com os homens a mudar as coisas para ele fazerem as sementeiras, fazerem essas coisas, carregava fardos para os gados, andava com uma rulote, punha os fardos em cima da rulote e íamos levar a esta herdade, aquela herdade. Fazia isso tudo. Trabalhei lá muito tempo, mas não sei dizer quantos anos foram. E lembro-me que quando comecei a trabalhar na fundação, foi quando comecei a fazer esta vinha aqui perto de S. Manços, andávamos naquela vinha, andava o meu marido com um trator e andava eu na vinha, foi quando a minha neta nasceu. Tanto que eu dizia que sabia sempre a idade da vinha, porque foi quando a minha neta nasceu, agora já foi arrancada, já só está a terra. Por isso foi nessa altura que eu comecei a trabalhar na fundação, faz trinta e nove anos e já eu lá trabalhava agora, porque ela nasceu e já andávamos a gente a por a vinha. E eu andei lá a arranjar para pôr as canas, a marcar vinha e isso tudo e então foi aí nesse tempo. Quando saí é que eu não sei, quando saí foi quando eu fui para o monte. Trabalhei aí oito anos, oito a nove anos na fundação.
A mudança que houve no 25 de Abril, para dantes era que dantes a gente usava as saias das calças, que era uma saia que vestíamos e púnhamos alfinetes aqui a segurar. E depois começamos a pôr os botões e era abotoávamos. Quando era o 25 de Abril e isso acabou. Começámos a usar aquelas saias pequeninas, com calças e aquelas saias pequeninas por cima e usávamos os lenços na cabeça, aqui abotoados para protegermos do sol e da chuva e agora já ninguém usa nada disso. É um chapéu na cabeça e pronto, já ninguém quer esses lenços na cabeça, agora pronto. Dantes íamos acompanhar as pessoas levávamos um lencinho na cabeça, agora já ninguém leva. É assim, os lenços acabaram-se, já ninguém usa lenços na cabeça. É já diferente do que era dantes e começou a ser mais liberdade, não é. Dantes não se via uma mulher no café, era raro uma mulher ir a um café. Agora já tudo vai ao café beber a bica, eu não vou, não bebo bicas, não bebo café e nem vou aos cafés e mesmo agora, foi a falta do meu marido, sou sozinha e com isto agora do tratamento, ó em casa é que eu estou bem, descansada.
Agora dia 29 de dezembro faz 100 anos que S. Manços se formou em vila e agora vão fazer um jantar de comemoração a esse dia. É dia 29 de dezembro, a ir ver em que dia é que é, ó no dia que é o jantar, à hora em que é o jantar é a hora em que eu estou lá ligada às máquinas.
A minha doença foi assim, eu em 2007, fui ser operada às hemorroidas no hospital e, no hospital já notavam que eu tinha deficiência nos rins, mas ninguém me disse nada e eu não sabia de nada. Não sabia de ter isto. Depois andei e tinha muita sede, ai eu bebia muita água, aquilo era água, que até parecia água a mais. E eu depois em 2014 fui ao médico de família e disse ao doutor, devia-me mandar faze análises, porque que há tanto ano que não faço análises, que devia-me mandar fazer, mas eu só me queixava de beber muita água. E o doutor mandou-me fazer análises, mandou-me fazer análise e quando as análises vieram eu fui outra vez ao doutor com as análises. E ele viu as análises e fez assim, ai o que é que se passa com os seus rins e eu disse até me está a deixar assustada, o que é que eu tenho? Passa-se qualquer coisa com os seus rins e então tem de ir imediatamente para um especialista, e eu vou já passar-lhe para ir já ao hospital e para você ir a um especialista de rins e vai já fazer outras análises, que é para quando for ao especialista levar já as análises. E assim foi. Eu fiquei logo assustada com aquilo, mas não sentia nada, nem tinha nada, só o que tinha era eu beber muita água e comecei a achar cansaço, cansava-me muito, qualquer coisa me cansava.
Fui ao especialista, ao doutor Rui Silva que é o meu médico de agora na clínica, fui ao doutor Rui Silva, a minha filha foi comigo e eu fui ao especialista. E o especialista disse que eu tinha deficiência nos rins e que já estava muito adiantado, que isto já estava muito adiantado. Então tive de fazer uma dieta, tive de fazer uma dieta e a tomar aquelas coisas, a ver como é que era. Vim de lá com a dieta, mas eu já vinha mal, comecei a estar mal, fazia a dieta, comia, mas muito diferente e depois já a saber que tinha essas coisas nos rins e comecei a andar cada vez pior, cada vez pior. E a minha filha pensava que eu andava pior era de andara a fazer a dieta. E depois comecei a vomitar, muito mal, muito maldisposta e a vomitar e assim ó mãe isso é de fazer a dieta com certeza, é de fazer a dieta e eu disse assim: ai não sei, mas eu faço a dieta e eu como e eu obrigo a comer, mas não sei o que tenho, eu não tenho forças, eu não tenho, isso é da dieta.
Ia aqui ao médico de família e o médico de família disse, se isso se você não vir a sua mãe melhor, não venha mais à de mim, vá com ela ao hospital. E eu continuei sempre na mesma e ela dizia: as outras pessoas fazem dieta e não se põem assim, ela põe-te assim. Eu já não sabia dizer nada, não dizia nada, cada vez pior e ela foi comigo. Foi comigo e depois lá disse que andava mal, disse que tinha isso tudo nos rins, que o doutor me tinha dito e o doutor calhou estar nesse dia lá, foi lá à de mim, deu-me uma injeção e chamou. E depois a minha filha disse ao meu filho, o meu filho foi lá ter também ao hospital e ele chamou um para ir falar com ele. E ele disse, você não deixou morrer a sua mãe em casa, porque não calhou, porque a sua mãe está mesmo, mesmo, mesmo na última. Tive de ficar internada já e comecei a fazer diálise e pronto. Foi até hoje, que ando a fazer diálise, mas depois comecei a fazer diálise e depois esmoreci muito com aquilo, naquela altura, estava internada e é como se isto é o meu fim. Sentia-me tão mal agora, ai tão mas agora isto é o quê. E o meu filho foi-me lá ver à visita das oito e eu disse-lhe assim, eu sinto-me tão mal assim com isto, não sei o que isto irá ser e ele disse: ó mãe, está lá um homem no meu trabalho que também faz, e ele até vai trabalhar, ele vai fazer diálise e depois vai trabalhar e vai passando, e a mãe vai passando e vai começando a fazer. E eu parece que tomei assim mais ânimo, depois de ele me dizer aquilo. Tomei assim mais ânimos e comecei assim, olhe a fazer e seja o que deus quiser. E continuei a fazer e já vai fazer em março, dia 9 de março, faz dez anos.
Se calhar, não havia. Se calhar não havia, mas eu nem sabia bem o que isto era quando comecei a fazer. Eu conheci uma senhora que fazia, que já sabia que havia isto e fazia. E depois de já andar a fazer, comecei a pensar que o meu pai, que tinha um irmão e esse irmão também tinha sofrimento nos rins e ainda foi para Lisboa, e veio e não havia este tratamento e ele morreu.
As oportunidades que têm e estudam até mais velhos, não é, até mais velhos. O meu filho com catorze anos começou a trabalhar. Começou a trabalhar com catorze anos, não foi estudar, não é, mas começou a trabalhar tinha catorze anos. E agora já vão estudar e estudam se possível até aos vinte e vinte e tal, já é diferente do que era dantes, não é. E estudam e ficam a saber mais e será melhor para os jovens, saberem mais e terem mais estudos, mas antes, mesmo que quisessem não havia dinheiro para se poder ir, mas às vezes havia pessoas que era uma pena acabarem os estudos com tão boa cabeça, mas não havia dinheiro. Tinha de se parar.

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Entrevista a Ivone Lopes

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Ivone Lopes
Entrevistada: Ivone Lopes (IL)
Entrevistadora: Manuela Oliveira (MO)
Localidade: Portel
Data: 24 de outubro de 2023
Transcrição: Diana Henriques (20/11/2023)

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MO:
Como é que foi a sua infância, a casa dos seus pais, o que eles faziam, o que a Ivone fazia, se ia à escola se não ia. Um bocadinho da sua infância, conte lá.
IL:
A minha casa era uma casa simples, o meu pai trabalhava no barro com o meu avô, eram oleiros, e faziam muitas coisas em barro. E ia lá muita gente comprar loiça, os loiceiros que andavam aí nas aldeias a vender loiça nos burros, nos burros e isso, ia ali tudo buscar a loiça. A minha casa era uma casa simples que tinha que se almoçar aquela hora, que o meu pai era muito exigente no horário da comida. E eu era mais, estava mais inclinada para as conversas do meu avô. Que o meu avô lia muito, era um grande ensinador de vida, e eu aprendi muita coisa com ele. Já o meu pai era mais, era diferente. Não ligava tanto a essas coisas e o meu avô era muito, era assim como eu sou agora. Gostar de ler, gostar de, nem tanto de escrever, mas de ler isso sim. Era espírita, recebia livros do Brasil, que eu adorava, aí é que eu fui aprendendo a escrever poemas, porque vinha naqueles livros que o meu avô recebia, uma poetisa Emília Pomar de Sousa Machado, brasileira que vinha nesses livros e eu gostava mesmo de ler. E o meu avô tinha lá uma, entre as duas arquinhas onde o meu pai trabalhava e o meu avô trabalhava, havia lá uma cómoda, onde o meu avô tinha lá aquelas gavetas todas cheias de livros e era muito dado à leitura. E um dia, eu estava sentada a ler e chega um senhor muito à pressa, que andava a PIDE atrás dele, e o meu avô disse-lhe olha deita-te aí no pau, na tábua onde eu ponho os pés onde eu rodo e foi o Pouca Roupa, chamava-se o Pouca Roupa, estendeu-se ali naquele pau, porque a roda, era uma roda pequenina e era uma grande por baixo, onde davam ao pé para a roda pequenina para fazerem as peças de barro.
Nisto, o homem já estava estendido sabia que a PIDE andava atrás dele, daí a nada a PIDE à janela da oficina. Então como é que vai isso do trabalho. E o meu avô com a maior calma dele, muito ele era assim muito calmo, talvez que eu tivesse apanhado um bocadinho dele e recolher e ser aquilo que sou hoje. E ele falou com os da PIDE como se o homem não estivesse lá em baixo deitado escondido. Eles foram-se embora e o Pouca Roupa saltou dali da tábua. O meu avô continuou a fazer, porque não o magoava nem nada, continuou a fazer o trabalho e a falar com os da PIDE. Eles nem imaginavam que o homem que andavam à procura estava debaixo dos pés do meu pai, do meu avô. Foi uma cena muito interessante.

MO:
E agora um bocadinho da escola, como é que foi a sua escola?
IL:
Nessa altura já eu andava à escola. Já lia, já andava, mas quando íamos à escola, a escola era de uma ponta à outra da vila. Morávamos ali em baixo e a escola era além em cima do lar. Ora, tenho de contar das pedrinhas. Aquilo de inverno, era um vazio, uma invernada grande e muito frio, muito frio, sempre muito frio e a minha mãe e o meu avô levantava-se muito cedo faziam um lumarelo grande, havia sempre lumes grandes e a minha mãe punha logo. O meu avô é que punha logo as pedrinhas, nas duas pedrinhas dentro do lume para irem aquecendo. E a minha mãe quando eu estava para, quando eu já tinha a bata vestida, a malinha e isso tudo, punha-me, enrolava as pedrinhas nuns trapinhos que aquilo era à base de trapos e punha-me em cada algibeira, e eu levava as benditas na algibeira com os pés gelos, porque não havia espaço para pedras nos pés. Chegava lá ainda com as pedrinhas mornas, à escola e conseguia escrever bem, graças às pedrinhas quentes que a minha mãe me punha na algibeira, me punha na bata. Era bonito assim, era bonito e era bom, pois porque as crianças sofriam muito nessa altura. Não havia um carro, não havia um telefonema, não havia um telefone, não havia nada, nada. O meu pai é que tinha um radiozinho pequenino onde a gente ouvia as notícias de Andorra, aqui fala rádio Andorra, a Emissora Nacional e a minha mãe à janela, ao postigo da porta para ver se não vinha alguns da PIDE ouvir, porque naquela altura, era o comunismo era havia aqueles partidos que não se podia falar. Era medo, medo do ambiente dessa gente. Fazia, metiam medo.
Bom, o meu pai depois começou-me a dar aulas de música, de solfejo e deu o livro todo de solfejo até às semicolcheias. Deu o livro todo, fiquei a dar, ficar bem integrada, no solfejo. Comecei a tocar banjo, o banjo do meu pai e o meu irmão vinha atrás de mim, que ele é mais novo que eu três anos que eu. Vinha também e um dia estávamos, um dia a estudar a aula que havia para estudar da parte da tarde, quando o meu pai acabasse o trabalho, para darmos a lição de música e não sabíamos. E eu digo ó Norberto como é que é isto, diz a minha mãe, olha filho as notas não sei, mas a música é lá lálálá, lálá lá, pronto já sabemos, mi ré dó si dó. Assim já a gente fazia os compassos da música, mas a minha mãe, a música entrava-lhe, as notas não.

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IV:
Ele fazia uma luminária, punha num latão aquele azeite, durante, que era guardado durante o ano, fazia uma luminária que ele era crente e iluminava tudo, aquelas chaminés, aquelas casas, os quintais daquelas casas, ficava tudo iluminado com a luminária que ele punha ali o quintal. Era tão bonito aquela luminária. E depois ele vinha para dentro ajeitava o lume deixávamos, ele dizia, vá filhos deixem já aí os sapatinhos para o Menino Jesus quando descer estarem aí os sapatinhos e vão já para a caminha que são horas. E tinha eu uns dez anos, o meu irmão tinha menos três e íamos deitar, mas era um dormir desejando de chegar o outro dia para sabermos. No outro dia de manhã o meu avô fazia o lume logo cedo, quando levantávamos já a cozinha estava quentinha corríamos os sapatinhos e nos nossos sapatinhos havia um bolo folhado e cinco bombons. Era tão bom. Ai Norberto, um bolo folhado e cinco bombons.

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IL:
O meu pai era daquelas pessoas que não me deixava usar cava, porque não rapávamos debaixo do braço, eu não podia fazer isso. Não me deixava fazer permanente, o cabelinho tinha de estar como estava e era cortadinho e já estava.
Depois, conheci o meu marido com ele a namorar outra, conheci-o a ele assim. Ele parava ali ao canto e a namorada dele estava lá no outro canto, mas ele já estava de olho em mim. Entretanto ele foi-se desviando da namorada e eu estava ali à porta, à janela e ele ia já ficando de olho em mim. E eu, digo, mas ele está aqui há tanto tempo, eu vou dizer à Maria Delfina que ele está aqui, mas ele não abalava ali do canto. E ao serão, ia-se aproximando além da faceta da minha casa até que chegou à janela e pediu-me em namoro, pediu-me em namoro. Eu aceitei, eu gostava dele, já estava bem habituada a ele estar ali sempre ao canto, todas as noites. Comecei a gostar dele e ele aproximou-se da janela lentamente e pediu-me em namoro. Mas, entretanto, quando o namoro já estava firme entre nós, ele pediu licença ao meu pai se podia ir para a janela namorar comigo. E fez uma espera ao meu pai, o meu pai saiu, ele já estava ali à espera e ele pediu. O meu pai disse que ia esperar, não foi logo sim, era daquelas pessoas que calma aí. Ia pensar, mas, entretanto, ele entendeu como um sim e continuou. Mais tarde, pois íamos passear, íamos colher a espiga, lá íamos para a altura do Zé Borrego colher a espiga e eram os nossos passeios eram assim.
Nessas alturas é que juntávamos as raparigas que eram costureiras, éramos costureiras todas, da minha idade, éramos, ia tudo para a costura. Tudo aprendia a coser, umas bordavam, outras faziam o que gostavam mais. E eu mais tarde, dediquei-me mais aos vestidos de noiva, fiz muitos vestidos de noiva, mas depois quem fez o meu vestido de noiva foi a minha mestra, ela é que fez o meu vestido de noiva. Foi o meu sogro foi-me pedir em casamento nessa altura, era assim um caso fora do normal. Nem toda a gente era assim, mas eu gostei, a minha mãe fez uns biscoitinhos, o meu pai comprou uma garrafinha de licor e o meu sogro veio, o pai dele veio com ele entraram, e lá beberam, lá foi o pedido feito, o pedido de casamento. Mas aquilo durou não sei quanto tempo, enquanto não tivemos o dinheiro para a mobília não podemos casar, só quando tivemos o dinheiro é que foi toma lá, dá cá a mobília. Comprou-se tudo. Marcou-se o dia do, a data do casamento e fomos casar no registo e o juiz que nos veio casar vinha com uma toga até abaixo, até aos pés, foi um casamento bonito. Não foi na igreja, não foi, foi na igreja de Santo António, mas que era o registo naquela altura e lá é que nos casamos.

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IL:
Fomos morar para uma casinha ali para o pé do jardim, ajeitamo-nos, a casinha bem ajeitadinha, com o meu gosto, o gosto dos dois. Porque o meu gosto, era também o gosto dele e o dele era o meu e sempre ficamos muito unidos, sempre fomos muito unidos. Embora, eu por vezes tirasse um bocadinho, eu gostava muito dos ciganos e havia além muitos, muito cigano, não havia ali casas nenhumas, nenhumas, nenhumas, era só carros e ciganos, carros e ciganos. E havia um ciganito que todos os dias eu lhe dava de almoço, mas o meu marido não sabia, era o meu segredo. Eu se havia de cozer dois ovos, cozia três e escondia um, e depois na açordinha punha migava as sopinhas, punha o ovinho e já sabia, o ciganito já sabia as horas, batia-me à porta. Então e as manitas, mostrava-me logo, se as tivesse sujas, ia-as lavar e depois digo agora, sentas-te ali à porta do Berbigancha e a parede do Berbigancha e comes aí as sopinhas. Todos os dias aquele ciganito comia ali aquelas sopinhas fosse daquilo que fosse, daquilo que eu lhe dava. Um dia tapei um burro de um cigano já grande, porque estava já com muito frio, o burro estava com muito frio e eu pus-lhe uma manta em cima, já picada do bicho e vesti-lhe uma gabardine do meu marido, que já não usava há muito tempo, nem ele se lembrava daquela gabardine. Vesti a gabardine ao cigano e ele foi todo contente, esparramou-se em cima do burro e lá vai ele de gabardine vestida e o burro todo de manta aos quadrados. Um dia diz-me ele assim, Ó Ivone lembras-te daquela gabardine que eu tinha? lembro, então? Não, não vejo agora aquela gabardine e dava-me jeito, não me lembro daquela gabardine, não sei onde está, eu lembro-me dela, mas não sei onde está. Estava um cigano com ela.
E depois viemos para esta casa, mas lá ainda nasceu a minha filha. Naquela casa nasceu a minha filha foi um parto normal fui só eu. Era eu pois, era a minha mãe que estava a segurar a cadeira, porque a gente tínhamos era um camalhinho, fazíamos um camalho no chão, nós ajoelhávamos e a força era toda na cadeira. As nossas mãos faziam assim, e assim é que tínhamos os filhos, a força era toda para baixo, era um instante enquanto a criança nascia. A parteira que era uma mulher que, normal, qualquer pessoa amparava a criança, mas sabendo também o que estava a fazer. E aquelas primas, tias e tudo, estava tudo lá no meu quintal à espera da menina. Era uma loucura. E esqueceram-se de mim, a senhora começou a vestir a menina, começou a vestir, elas levaram logo a menina lá para fora e eu fui para a cama. Entretanto eu tinha a placenta ainda e digo olha António Manuel, as pessoas que têm logo as crianças sentem-se logo aliviadas e eu não estou, então eu vou chamar o médico. Foi logo a correr ao médico, era foi como se tivesse tido outro filho, porque o corpo já estava fechado e a placenta teve de sair a poder de força, de muita força, e assim nasceu a minha filha e eu pensei, se deus quiser, eu vou ter um filho, mas quem trata de mim sou eu.
Viemos para esta casa, ao fim de dois anos nasceu o meu filho, nasceu o meu filho e foi assim. Quem tratou de mim fui eu. Estava aquela senhora, que era a parteira já era outra havia aí tantas parteiras, que iam amparar as crianças, era o meu camalhinho, eu com os joelhos no chão e as mãos ali na cadeira, nasceu. Eu peguei nos pezinhos do meu filho e puxei, na cabecinha puxei toda torta, toda torta, a segurar o meu filho, eu trouxe-o à vida, trouxe o meu filho à vida. E depois digo anda enrola-o numa toalha, seja aquilo que for e vão levá-lo ao pai, que soa aqui a ressonar, que ele não dá por nada. E eram duas e meia da manhã, da noite e a minha filha nasceu às duas e meia da tarde, foi assim. E depois eu fui para a casa de banho e aí eu tirei a minha placenta. Sozinha. Sem mais ninguém a ajudar-me e foi um parto lindo e ainda hoje eu parece que estou a sentir. Bom o meu marido ficou delirante com a menino, já estava o bercinho arranjado.

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IL:
O 25 de abril foi que o meu marido era leitor cobrador da EDP e andava nas aldeias a fazer a leitura da e cobrança da luz. E nesse dia estava na Vera Cruz e eu eram oito da manhã e ainda tinha os meus filhos deitados e começa a ouvir a música na rádio fora do normal. Era aquela música, de da tropa uma música que não era que a gente não estava habituados a ouvir às oito da manhã na rádio. E digo aqui passa-se qualquer coisa, fui a correr, deixei os filhos deitados, fui a correr ao meu pai, pai, pai, passa-se qualquer coisa, acenda lá o rádio passa-se qualquer coisa de certeza. O meu pai acendeu o rádio e começamos a ouvir a qualquer coisa da tropa, a revolução, uma revolução eu já não me lembro bem das palavras que se ouviam na rádio, mas eu fiz uns versos com aquilo que ouvi depois fiz um poema e então:
Foi um dia inesquecível,
vivido numa ansiedade,
partiu para sempre o fascismo
E ficou a liberdade.

Quem teve alguém na família,
Saindo daquelas prisões
Ainda parecia mentira.
Tinham sido os capitães,

Portel cantava e gritava,
ainda sem saber de quê.
As noticias vinham chegando
E as imagens da TV

Reinou a democracia
A liberdade venceu.
Ainda parecia mentira
Como tudo aconteceu.

Eram cravos encarnados,
Nos canos das espingardas,
nas lapelas dos casacos,
E nas mãos entrelaçadas.

Chegou o primeiro de maio
Não havia distinções
Os irmãos eram irmãos
Não havia divisões.

Mas como passar dos anos
Vai se notando a diferença
Cada um com seu partido
Cada qual com sua crença

É preciso refletir
E é preciso pensar
Que quando se perde a liberdade
O quanto custa alcançar

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MO:
A seguir ao 25 de abril se houve assim algumas mudanças que notou, se vieram pessoas de fora para cá, como eram essas pessoas, vieram fazer o quê? A seguir ao 25 de Abril

IL:
Depois da liberdade, as pessoas sentiam-se livres, para ir para onde gostavam de estar.
E eu tinha uma amiga, uma amiga, nessa altura não era. Havia uma senhora que tinha um marido que era médico, cá na vila era o doutor Salvado e essa senhora concorreu para a câmara. Concorreu e ficou na câmara, ficou era concorrente da câmara, ela e era o marido que era médico e começamos a travar conversas, lidação uns com os outros. O doutor Salvado vinha aqui e trazia os policlínicos que também estavam cá bastantes no centro de saúde e o meu marido como estava doente, ele vinha tratar do meu marido e trazia os outros todos. Entretanto começou-se a criar uma amizade e a doutora Manuela que era presidente da câmara, começou a integrar-se também nesta amizade. E aqui na minha casa juntou-se muita gente, muita gente amiga, eram professores, eram engenheiros, eram médicos, médicos, eram o notário, era o juiz, era bom toda a gente aqui vinha. Até uma senhora de Lisboa, que pertencia ao Estado, fazia parte do Estado. Ela é que recebia o dinheiro que vinha do estrangeiro, lá de onde não sei, mas ela é que recebia isso e depois o Estado é que tomava conta disso, que era a Maria e o Zé. E para aqui vinham.
E o que é que havíamos de pensar, e era uma médica muito gira que era a Ritinha, a doutora Rita, vinha cá porque namorava ou estava junta com um arquiteto de cá, que estava cá e dava aulas. O meu filho ainda foi aluno dele e ele passou em tudo, menos naquela disciplina que ele dava e ele dormia aqui as sestas. Digo eu: Ó Jorge então quer dizer que o meu filho para si não faz nada e o meu filho ficou com aquela disciplina cortada, pronto. Mas ele sempre foi bem-recebido e depois combinamos, entre todos combinamos ir à pesca, uma diversão bonita. Todos os fins de semana que eles tinham para gozar, gozavam nos Almoxarifes, nos moinhos de, onde faziam a farinha, onde moíam a farinha, lá. E para lá é que nós íamos, levávamos o farnel e cada um levava o seu carro, e lá íamos para os Almoxarifes, dormíamos no moinho, com os ratos naquela, onde ia a Maria, um dia levou bifanas numa travessa e digo Maria, olhe que há aí muito rato, não que ficam bem aqui dentro do moinho, ficam aqui bem. No outro dia não havia vestígios de carne, não havia nada, foi uma risota grande. E eu e a Rita fomos à pesca para um lado, eles pescavam noutro, outros faziam o almoço. Bom, cada um divertia-se à sua maneira. Nisto vem a venatória, não podíamos pescar, nós não podíamos. A Rita tem uma cana, eu tinha outra e quando mandei a cana, eu pesquei o peixe pelas costas. Aquilo gritei Torres, Tó, Jorge, eu chamei por todos para me virem apanhar o peixe que eu não tinha força, se não ia atrás do peixe. O peixe era grande, tenho ali fotografia que eles me tiraram eu com o peixe assim. E a Rita enfiou a cana ali por as a cana de pesca por entre as outras canas que estavam ali no chão no campo, por causa da venatória, que não consentia, tínhamos de ter uma licença de pesca e isso tudo. Maneira que era assim os nossos fins de semana.
À noite vínhamos, cada um comia os restos que havia e o doutor Alfredo, que era o juiz, dizia-me Ivone então não haverá aí nem uma folhinha de couve, eu fazia aqui um caldo verde. Olhe eu vou pedir ali à vizinha, fui e ia pedir à vizinha umas folhinhas de couve. Ele fazia um caldo verde bem feito mesmo, ele trabalhava bem naquilo, punha-se ao fogão e fazia um belo caldo verde. A minha cozinha era grande, cabia toda a gente. Havia violas, havia cantes, havia tudo e muita amizade entre todos, especialmente, muita amizade e cada um dizia a sua coisa.

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IL:
A minha vida é espetáculo. Eu adoro palco. Já fiz teatro, já toquei, já disse rábulas, já disse monólogos, já me enganei muita vez, já bom, mas os enganos são graça. E gosto, eu adoro a vida de eu não digo artista, mas destas coisas de palco, eu gosto. Gosto de me sentir, eu sinto-me livre e sem estar a olhar para quem me está a ver. Eu entrego-me de tal maneira, que as coisas, as palavras saem, eu sei a história, mas quem a transmite por palavras minhas, sou eu. A história é a mesma, mas não é por um livro, não é decorado, não é não decoro por palavras minhas. E às vezes sai asneiras, asneiras que toda a gente ri.
E nos teatros, e havia também uma senhora, uma senhora, que pediu ao meu filho, ensaiava crianças, havia lá um espetáculo com crianças vestidas de ceifeiras e as gaiatas, era para haver uma animação de verso a dizer o que as crianças estava ali a dizer e a dançar, mas tinha de haver um, tinha de haver, que se descrever porque é que elas estavam assim. E aquela professora pediu ao meu filho, para eu fazer uns versos à situação que se ia passar, que ela ensaiava, ela gosta e gostava muito, é a Elsa, a Elsa Aleixo. E eu fiz, fiz. Era num instante, eles diziam-me sempre que era para ontem. Os versos que me vinham pedir era sempre para ontem. Então eu fiz e ela gostou muito e pediu ao meu filho para me dizer se eu podia fazer mais alguns e eu fiz seis, seis versos. E ela disse ao meu filho: Ó Paulo, a tua mãe não era capaz de se vestir de ceifeira e de vir ela mesmo própria dizer os versos? E as meninas dançavam. Eu fui logo, vesti-me logo de ceifeira, de lenço à cabeça e toca que eu aí vou a caminho do palco. Para mim foi um espetáculo. Eu disse os versos, as crianças dançavam foi muito lindo, foi muito lindo.

MVI_ 6100
IL:
Eu entrava na costura, entrava no teatro, entrava em muita coisa. E havia lá a professora, que era a professora Helena que também dava aulas, a muita coisa. A meditação, várias coisas que ela fazia, desenho, as pinturas, foi ela que me ensinou a pintar, foi uma senhora muito especial e chamava-se Helena. E eu tenho nas iniciais de Helena eu ponho:
Helena a nossa professora da universidade sénior, sorriso fácil, pessoa muito especial e com uma maneira de ensinar fora do comum.
Em aulas de teatro dá-nos as dicas e deixa-nos os textos correr ao nosso critério. Assim é que eu gostava. No final dava-nos a sua apreciação, o seu comentário e realmente tudo o que ela faz e diz, tudo o que ela diz faz sentido, tem feito demonstrações disso mesmo.
Literatura uma grande pedagoga, estaríamos tempo sem fim a ouvi-la trocar impressões, a fazer perguntas, a tirar, dúvidas sobre tantas coisas e dá gosto.
Em pintura ela se desdobra, entre tantas alunas, dando um toque aqui, um toque ali, satisfazendo o mais possível tudo o que era possível, fazendo um esboço, a pintura. Mudava tudo logo de figura, com o toque das suas mãos mágicas.
Naturalmente simples, porque se vê que é, mas também é característico dos sábios, porque quanto mais se sabe, mais a vaidade lhe passa ao lado. Tem trabalhado, estudado muito para saber ensinar tudo o que aprendeu de uma maneira extraordinariamente bonita de tudo o que aprendeu.
Anda sempre a correr, não pára. Por vezes nota-se um ligeiro e fugaz cansaço no olhar, mas logo passa e vem aquele sorriso fácil, que leva todos atrás dela. É uma pequena grande mulher. Um abraço carinhoso da aluna de 74 anos Ivone.

MVI_6103 [Poema]
Os ciganos

Deambulando lentamente pela estrada fora,
Aí vão eles de peles bem tostadas,
Ao sol, à chuva, ao vento e sem demora,
Ao rigor do tempo e vestes ensopadas.

Os carros de bestas trepitando,
Seus corpos balançam ao ritmo da molar
Sua luz são estrelas cintilando
São os ciganos de quem estou a falar.

Nem sempre aceites onde quer que poisam,
Como bando de pássaros que vão poisar
Eles são do mundo
E nem sequer pensam que têm o direito de se porem a pensar.

Ó ciganos,
Ó gente sem ter rumo,
Nómadas sem beira,
Olhar de inocência

Diferentes de todos,
mas iguais em tudo
Dignos de um olhar,
de um olhar de esperança.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Entrevista a Joaquina Vidigal

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Joaquina Vidigal
Entrevistada: Joaquina Vidigal (JV)
Entrevistadoras: Maria Ana Bernardo (MAB), Manuela Oliveira (MO)
Localidade: São Manços
Data: 05 de março de 2024
Transcrição: Diana Henriques (27/05/2024)

MVI_6590
JV:
Joaquina Vidigal de São Manços, fui criada aqui, vivi sempre em S. Manços. A infância também não foi pior, tive amigas na escola. Depois fui estudar para Évora, ficávamos a semana toda em Évora, vínhamos ao fim de semana a casa, mas era de casa para a escola e da escola para casa. Não saíamos. E depois cá ao fim de semana, também pouco saíamos, não tinha nada a ver com esta vida agora. Estudávamos, mas também não tínhamos dinheiro para andar a sair como eles agora têm. Nunca saíamos daqui.

MAB:
E na altura em que a senhora foi estudar havia muito mais colegas suas daqui de S. Manços que fossem estudar?

JV:
Era muito pouca gente a estudar nessa altura. A maior parte das minhas colegas ficavam todas no campo, que andaram com a gente na primária. Ficava quase tudo cá a trabalhar. Depois o meu pai teve pessoas que o ajudaram e lhe disseram mete as miúdas a estudar e ele com a ajuda das pessoas com quem trabalhava conseguiu metermo-nos a nós a estudar.

MAB:
Porque o seu pai, a profissão dele era

JV:
Agricultor e trabalhava por conta de pessoas aqui da zona, que tinham herdades e isso. Tomava conta dos trabalhos, tinha pessoas a trabalhar para ele e depois tomava conta do trabalho das herdades. E trabalhavam lá. E ele conseguiu meter lá nós as três a estudar, nessa altura.
Depois casei-me, não foi feliz, não foi muito feliz no casamento. Fui feliz o tempo que tive, mas depois tive a infelicidade de ficar viúva. Fiquei com duas miúdas. Uma tinha sete e a outra ia a fazer dois. Mas com a ajuda também do meu pai, do meu sogro e isso, consegui acabar a casa e que elas estudassem as duas.

MAB:
A senhora achava, achou importante que elas estudassem?

JV:
Sim

MAB:
Porquê?

JV:
Porque lhes queria dar um futuro melhor. Queria que elas tivessem e depois consegui também, nessa altura, com ajuda, lá está não foi sozinha, sempre me ajudaram. E hoje tenho dois netinhos, um deles já tem catorze anos, o outro tem sete. E foi assim a minha vida, depois fui para a fábrica e estive lá quase 44 anos e foi esse o meu percurso.

MAB:
Mas a senhora quando foi estudar fez até que ano?

JV:
O nono ano

MAB:
Fez o nono ano

JV:
Não quis estudar mais. Nessa altura queria

MAB:
E fez o nono ano onde?

JV:
Na escola industrial, onde é hoje a Gabriel Pereira.

MAB:
E fez que curso lá, curso comercial, industrial?

JV:
Era o curso, como é que se chamava, curso geral do comércio. Já não me recordo bem, sei que é na parte do comércio

MAB:
Curso geral do comércio

JV:
Tinha contabilidade, direito e havia a parte da indústria. Que era mais dos rapazes

MAB:
Que era mais dos rapazes. As meninas iam mais para a parte comercial. E não foi para o liceu porquê?

JV:
Eu sei lá, talvez porque os meus primos, filhos das minhas tias, tinham todos andado nessa escola. E nós se calhar fomos para aí influenciados por eles, isso também já não sei, mas devia ter sido. E como as minhas tias moravam ao pé dessa escola, se calhar acharam melhor irmos para essa. E acho também que era a escola que tinha mais referência nessa altura, a escola industrial. Acho que foi por isso.

MAB:
E depois terminou a escola e não quis estudar mais ou

JV:
Eu não quis, porque depois juntei-me nessa altura. Não casei, juntei-me. Já estava grávida. Então acabei por juntar-me e já não quis estudar mais. Só uma das minhas irmãs é que tirou, as duas têm o décimo segundo. Pois juntei-me

MAB:
A senhora sendo a mais velha portanto

JV:
Não quis estudar mais. Depois ainda fiquei em casas esse tempo que estive grávida e quando a minha filha mais velha tinha um ano foi quando entrei para a fábrica, até hoje.

MAB:
Entrou para a fábrica que na altura se chamava?

JV:
Era as Siemens

MAB:
Era a Siemens

JV:
Era as Siemens em Évora.

MAB:
E trabalhou lá quantos anos?

JV:
Trabalhei lá 44.

MAB:
Quase 44 anos?

JV:
Gostei de trabalhar na fábrica, sei que está diferente agora. Agora os trabalhos são diferentes, mas foi, gostei muito ao ponto de me vir embora gostei de trabalhar. Apertaram mais, talvez pelas pessoas abusarem um bocadinho, foi na altura em que havia sindicato, foi quando eu entrei. Depois acabaram com o sindicato, foram acabando com as regalias todas, mas também eu acho que houve muito abuso por parte das pessoas, mas não sei.

MAB:
Como é que a senhora vê as coisas

JV:
Eu acho isso. E eles hoje apertam, não dão liberdade nenhuma. Por exemplo nós dantes íamos ao pequeno almoço, ia tudo ao mesmo tempo e depois em vez de se ter um quarto de hora, tinha-se quase meia hora, isso tudo foi acabando. Começamos a ter cartões, tinha toda a gente que cumprir, com os cartões, um quarto de hora de manhã, dez minutos à tarde, começaram a exigir aquelas compensações, que isso ainda não percebi porque é que tínhamos de começar a compensar esse tempo. Pronto isto agora já não tinha nada a ver como quando eu fui para a fábrica.

MAB:
As condições de trabalho alteraram-se

JV:
Há muito, mas eu mesmo assim gostei de trabalhar lá, pronto não sei. Tinha de trabalhar. Nós quando vamos para a fábrica temos de trabalhar ou para outro trabalho qualquer. E eu sempre trabalhei. E se calhar também há muita gente que pensa que vai para além, não trabalha, não sei. E eles foram cada vez mais apertando com as pessoas, não sei. Eu sempre respeitei as pessoas e gostei de trabalhar, pronto. Mas vê-se que está diferente, depois acabaram com sindicatos, nós tínhamos plenários, tínhamos direito a estar a ouvir o plenário, tínhamos direito a parar de greves. Foram acabando com tudo.

MAB:
Agora já não existe lá nada

JV:
Já não existe lá nada, têm medo. E depois a maior parte das pessoas agora é tudo contratados. Já está tudo com medo, tem tudo medo. Pronto, mas foi uma empresa que desde o primeiro dia que eu entrei, até ao último, nunca falhou um ordenado. É muito importante. Nunca, nunca, nunca falhou um ordenado. Isso é verdade.

MAB:
Tem ideia de quando começou lá a trabalhar, quantas mulheres é que havia lá a trabalhar?

JV:
Não faço a mínima ideia. Era muito menos, agora a fábrica está o dobro quase, não tinha nada. E quando foi a parte Siemens, também quando era os alemães e isso eles sempre respeitaram e nos deram garantias. Cada vez foram sempre pior as coisas, deixaram de os alemães mandar também, acho que também teve um bocado de influência isso. Os portugueses ou sei lá quem era e hoje em dia é muito diferente, pronto. As pessoas querem subir, subir e ultrapassam tudo e sei lá o quê. É totalmente diferente de quando nós entramos.

MO:
Vamos voltar um bocadinho a trás, como é que foi a sua juventude?

JV:
Eu não tenho assim muito, foi a estudar e pouco mais. Nós não tínhamos o que essa juventude tinha hoje. Era esses bailaricos aí das aldeias era o que nos divertia, os filmes aí de parede, ainda me lembro de dar na parede. E pronto, pouco mais. Eu até ao ponto de hoje ainda não entrei numa discoteca. Não tem nada a ver. Bares e isso, nós nunca tivemos nada disso. Era divertimentos só de aldeia, era os mastros aí nas ruas, quando era aí na altura do S. João fazia-se os mastros, fazia-se as fogueiras, praticamente foi isso, pouco mais. Nós não saímos daqui. Era o Carnaval fazíamos três dias matinés, à noite quando era o baile já não podíamos ir sozinhas. E era assim. E daqui ninguém saía daqui era muito raro. Na minha altura, nem me lembro de ir para Évora num dia à noite. Era tudo aqui passado, divertimentos de aldeias. Era a feira, que era uma barraca e meia e um carrossel e pronto era o que nos fazíamos.
Nem praias, nem nada. Eu nunca fui, só mais tarde só depois de ser viúva é que eu comecei a ir à praia com o meu pai e as minhas irmãs, ninguém ia, nós não tínhamos férias assim. Porque tínhamos de ir todos os anos para as praias, eu não conhecia as praias nem nada. Mais tarde, já depois de viúva já tive outra vida que não tive em mais nova. Por isso, a minha infância foi só isto e nós éramos alegres, e pronto. Olhe e era às vezes passada aí nos ribeiros às rãs, ainda me lembro rãs no ribeiro, e era os nossos divertimentos. E pelo carnaval lá vestíamos aí umas, e lá brincávamos nas ruas, pouco mais.

MAB:
Mas por exemplo, comparando quando era nova, com as suas filhas, com a vida das suas filhas, há diferenças? E a senhora permitia já que as suas filhas tivessem uma vida diferente ou não?

JV:
Muito diferente, graças a deus, já tiveram outra liberdade. Embora elas não fossem umas miúdas que me dessem muito trabalho, também não eram, tive sorte nisso também. Sempre saíam, sempre foram a discotecas e a bares, mas sempre souberam andar, pronto. Não tive problemas nenhuns com uma nem com a outra. A mais nova essa então quase que não sai.

MAB:
Com as suas filhas pois

JV:
Também já tiveram diferente, também, já saíam, mas sempre souberam sair, sempre souberam se comportar, graças a deus.

MAB:
E a senhora achava que elas deviam sair, porquê?

JV:
Ora porque se calhar a própria sociedade já permitia que nós olhássemos de outra maneira. E todos já faziam, e elas também queriam, então se calhar íamos indo todos atrás uns dos outros. E porque é que elas vão e a gente não pode ir, já tiveram uma vida completamente diferente da minha, mesmo diferente. Embora, dentro do respeito, mas tiveram uma vida diferente.

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MO:
E ao nível aqui da aldeia, houve outras melhorias das pessoas terem outras condições, para a educação dos filhos, para poderem praticar desporto, para aqui ao nível da aldeia, a senhora acha que houve muita diferença?

JV:
Sim sempre evoluiu um bocadinho, há várias coisas, que no outro tempo ninguém tinha, há tempos livres, há passeios com as crianças, há. Fizeram a creche nova também, acho também que modificou um bocado. Acho que a Florinda, também tem feito muito aqui até agora.

MAB:
E quando as suas filhas foram estudar, para Évora não foi?

JV:
Sim, sim.

MAB:
E já havia mais, aí como é que era, quando a senhora foi estudar havia pouca gente a ir estudar?

JV:
Sim

MAB:
E quando as suas filhas foram estudar, a geração delas já havia mais gente a estudar?

JV:
Sim, nessa altura já quase toda a gente, já toda a gente ia estudar.

MAB:
No tempo das suas filhas?

JV:
Sim, sim. Eram camionetas já cheias de pessoas para irem estudar, já ia quase tudo, quase tudo, tudo. Já quase tudo ia para estudar. Era muito raro a rapariga que ficava aqui em S. Manços, já quase toda a gente tinha possibilidade de mandar estudar os filhos, pelo menos até ao nono ou ao décimo. Quase todos têm o nono ou o décimo segundo.

MAB:
As pessoas da geração das suas filhas?

JV:
Sim, sim, sim, quase todos já têm. Já ninguém, por exemplo na nossa altura, os rapazes quase todos iam aprender ou para serralheiro ou iam para o campo, e nesta altura já não, já iam estudar.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Entrevista a Josefa Correia

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Josefa Correia
Entrevistada: Josefa Correia (JC)
Entrevistadoras: Maria Ana Bernardo (MAB), Manuela Oliveira (MO)
Localidade: Ilhas de Arraiolos
Data: 09 de fevereiro de 2024
Transcrição: Diana Henriques (22/05/2024)

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JC:
Chamo-me Josefa do Carmo Carolino Correia, nasci nas Ilhas, vivo nas Ilhas, continuo nas Ilhas.

MVI_6554
JC:
A minha infância, os meus pais eram muito pobres. O meu pai vivia, trabalhava no trabalho do campo, no rural, a minha mãe também. Éramos cinco irmãos, eu era a mais nova, mas graças a deus, com o esforço do meu pai e da minha mãe, de trabalharem tanto, de se levantarem às cinco da manhã para irem trabalhar de sol a sol. Nunca nos faltou pão, nunca passamos fome, nunca andamos descalços como algumas crianças andavam, nunca tivemos roupa de querer vestir, embora a minha mãe a lavasse à noite para nós a pudermos vestir de manhã, mas tivemos sempre roupa para vestir.
E foi uma infância muito dura, porque os meus pais trabalharam muito e penaram muito para criar cinco filhos. O meu pai trabalhava no campo, teve um acidente que partiu os dois joelhos, esteve em Lisboa um ano, sem nós o pudermos ir ver, que era as minhas irmãs mais velhas, não era eu, eu vi contaram ao meu pai e sem a minha mãe ter dinheiro para o ir ver. Esteve um ano no hospital sem ninguém o ver, sem ninguém o ver. Só quando se pôs capaz é que veio para cá, porque nessa altura só se podiam ir ver os ricos, os pobrezinhos não tinham dinheiro para nada. Que tivessem doentes, que não tivessem, estavam para lá arrumados um ano, que não havia camionetas, que não havia dinheiro para camionetas, não havia dinheiro para autocarros, não havia dinheiro para nada. Se não só para comer e mal.
Foi a minha infância foi assim. Brinquei muito, ria muito, cantava muito. Era uma pessoa muito alegre, até me puseram Maria Papoila, que ainda hoje me chamam Maria Papoila, porque eu gostava muito de cores, andava sempre de mini saia. Vivi a minha infância muito feliz, muito feliz. Com amigas muito boas, que ainda hoje nos damos bem, de coração, porque hoje já não há essa amizade de coração, mas eu ainda tenho amigas de infância de coração. Então eu tive uma infância muito bonita e muito boa. Nunca tive um pai que batesse numa filha, a minha mãe era um bocadinho mais áspera, mas eu tive um pai que era um excelente pai, o meu adorado pai, que morreu como nós não queríamos, mas a vida é assim.
Ainda hoje tenho quatro irmãs, nunca nos brigamos, nunca ainda discutimos, nunca tivemos nada, todos nos damos bem. Tivemos uma infância pobre, muito pobre, mas muito bonita. O meu pai sentava-nos à chaminé: Filhas venham cá cantar com o pai. E vinha farto de trabalhar, e nós sentávamo-nos todos à roda dele ao lume que era a chaminé grande e ali estávamos a cantar. Ele gostava muito de cantar Ó Oliveirinha da Serra; O chapéu preto, Ó que lindo chapéu preto. Foi uma infância muito linda que eu tive.

MAB:
E quando terminou a quarta classe, depois ficou em casa ou foi imediatamente trabalhar?

JC:
Quando terminei a quarta classe, havia um senhor que era de Vila Viçosa, que era o senhor, não me lembro bem, mas o último nome dele era Ortigão, que era ali na SOFAL quando se vem de Évora, aí é que nós cosíamos tapetes. A senhora que mandava na gente, que já morreu, chamava-se Maria de Jesus e então, nós íamos para lá trabalhar. Nessa altura não havia aquela coisa de termos só de trabalhar aos dezoito anos, a qualquer idade ia. Mas foi um senhor muito bom, porque nós íamos para lá com treze e catorze anos e ele dava-nos as regalias todas. Punha-nos logo na segurança social, tive logo segurança social desde os treze anos, tinha no bilhete, que ainda eram aqueles bilhetes antigos. Parecia uma boneca de cera, a gente éramos tão pequeninas e magrinhas, que nos deu logo as regalias todas. Trabalhei lá muitos anos, muitos anos. Quando se deu o 25 de Abril, então aquilo acabou. Então houve uma outra senhora que se chamava Senhorinha, que depois montamos os tapetes mais cá em baixo, ao largo da estrada, uma casa que aí estava

MAB:
Em Arraiolos?

JC:
Não, nas Ilhas à mesma. Que ela fazia parte sindical e depois montou esses tapetes, mas depois eles não compravam, a gente não tinha para onde distribuir, porque os ricos não compravam, porque se tinha dado o 25 de Abril. E ela então, acabamos tudo com isso. Depois formou-se a cooperativa dos tapetes. Formou-se a cooperativa dos tapetes até hoje. Como eu era sócia, uma ia-se associando a outra, pagávamos nessa altura, 750 escudos, 750 escudos para associarmos. Cosíamos lá quase toda a gente, da minha mocidade, cosia lá muita gente das aldeias, muita, muita gente sempre lá a coser. Depois essa senhora fechou aquilo, não fechou, meteram outras na comissão, essa senhora foi para a Suíça, não quis saber dos tapetes. Eu trabalhei lá muitos anos ainda, trabalhei lá para aí uns 20 anos.
MAB:
Na cooperativa?

JC:
Na cooperativa dos tapetes, cosi lá para aí 20 anos. E depois tivemos uma altura aí mesmo na cooperativa, eu como tinha cinco irmãos tivemos de sair, porque os meus pais não tinham dinheiro arranjado para a gente, porque nós não recebíamos ordenado, porque eles não compravam os tapetes. E então cada uma decidiu ir trabalhar para seus lados.
A minha irmã mais velha casou com 20 anos, trabalhou sempre no campo, eu cosia tapetes, mas depois cosia em casa. Havia muita gente que cosia em casa, ia buscar à fábrica e cosia em casa

MAB:
E era uma ajuda

JC:
Era uma ajuda, para o marido que andava com os camiões fora para o Algarve, para o Norte e isto, e ela cosia em casa. De maneira que eu cosi sempre nos tapetes. Depois fomos ainda para a fábrica do tomate, que era além ao pé da igrejinha, ainda trabalhei lá uns meses grandes. Depois voltei outra vez para os tapetes, para a cooperativa, e aí, nos tapetes, andei muitos anos outra vez, muitos anos. Trabalhei à volta de todo o tempo que lá estive, para aí uns 20 anos na cooperativa.
E depois engravidei do meu filho, tive nove meses na cama, porque não podia fazer nada. Nasceu ele, tinha a minha sogra uns primos que tinham uma fábrica que fazia peças para a TYCO, ele trabalhava na TYCO, então a minha sogra disse: Ó Josefa, como comprastes agora a casa, fizeste agora uma casa de novo, tens mais despesas, tens a menina, se tu quisesses na fábrica, tu ganhavas mais e eu pedia ao meu primo e tu ias para a fábrica. E assim foi. A minha sogra pediu ao primo, eu ao fim de dois dias estava na fábrica. Tinha o meu filho seis meses, fui para essa fábrica trabalhar. Trabalhei lá dezassete anos, sem perder um dia.

MO:
Em Évora?

JC:
Em Évora. Sem perder um dia. Eu no gráfico quando me vim embora, disse que foi das melhores empregadas que eu cá tive, mesmo com filhos pequeninos, nunca perdeste um dia, nunca faltaste uma hora, nunca faltaste um sábado. Nunca faltastes nada.
E depois vim-me embora de lá, depois entrou o senhor Sócrates, que deu a reforma aos 55 anos, com 40 anos de caixa. Eu tinha 42, nessa altura a minha filha tinha-se divorciado, tinha três netos pequeninos, a mais pequenina tinha dois anos e meio, nós é que a tínhamos de ajudar, se não mais ninguém se não os pais, nós os pais fazemos tudo por tudo. E eu vim-me embora da fábrica, para fazer pelos meus netos, não era para fazer, porque eles estavam na creche, era para os ir levar, ter tempo dos ir buscar e levar, porque a minha filha trabalhava em Montemor na Santa Casa da Misericórdia, quando era as oitos horas tinha de lá estar. Ora os meninos tinham de estar na pré-escola ou na creche às nove, ora como é que eu podia estar às sete horas a trabalhar numa fábrica, para depois os ir levar às nove. Tive de sair. Saí da fábrica, vim para o desemprego.
Vim para o desemprego, estive três anos e quatro meses no desemprego. Tive um ano na Santa Casa da Misericórdia, estive um ano na escola primária das Ilhas, estive outro ano no ciclo de Arraiolos. Depois daí saiu a lei de aos 55 anos, com 40 anos de caixa, passar para a reforma. Passei do desemprego para a reforma. Para a reforma a trabalhar, continuei a trabalhar, porque a reforma era tão pequenina, que não dava, porque me penalizaram cinco e meio porcento. E a senhora disse-me lá, quando a senhora fizer os 66 anos, vai recuperar esse dinheiro e fica com a sua reforma por inteiro. Mentira. Ficamos na mesma. Fui lá, ficamos na mesma, como fiquei da primeira vez, foi como fiquei até agora.
Tenho de trabalhar para ajudar os meus netos, para ajudar as minhas filhas, os meus filhos, porque infelizmente, não têm ordenados para comprar uma casa. Eu quando comprei a minha casa, tirava, levantava 2000 ou 3000 euros e desse dinheiro, levantávamos despachávamos os papéis para poder comprar a casa. Eles agora têm de ter 20 000 euros ou 10 000 euros, o meu filho foi, tinha de ter 10 000 para a papelada, fora do que lhe emprestavam, ele tinha de ter 10 000 euros, para ter papéis para a Caixa Geral de Depósitos, para lhe fazerem os papéis para ele poder comprar uma casa. Como é que é possível com os ordenados que eles têm? Com 800 euros, está bem que agora levantou um bocadinho mais, mas de qualquer das maneiras, levantamos mais, como é que esta juventude pode comprar uma casa? Eles têm que abrir a pestana, eles têm que abrir a pestana. Não é com o ordenado que eles ganham que eles vão a algum lado. Eles estão até aos 40 anos em casa dos pais. Eles têm filhos, divorciam-se e vão para casa dos pais. Eles não têm dinheiro, vão pedir aos pais que estão reformados. Eles têm de ver o que andam a fazer da vida, eles têm de ver o que andam a fazer da vida.

MVI_6557
JC:
Não havia telefonias em muito lado. Então para ouvirmos a rádio Moscovo, nós tínhamos uma vizinha, que nem toda a gente tinha telefonia, como hoje nem toda a gente tem televisão. Então aquela senhora vivia perto da minha mãe e era prima da minha mãe. Tinha uma telefonia e nós, aí às dez, quando dava a rádio Moscovo, dez, dez e meia aquela hora, olhávamos para todos os cantinhos, que não sabíamos onde eles estavam, púnhamos o xaile preto pela cabeça, e íamos para casa dessa senhora, todas com o rádio baixinho, com o ouvido, ali a ouvir a rádio Moscovo, a ouvir o que eles diziam.
Depois saíamos de lá, olhávamos para todo o lado, não tivesse algum a ouvir a gente ou a ver e lá íamos a gente. Íamos todos os dias.

MAB:
E porque é que iam ouvir a rádio Moscovo? E como é que sabiam da rádio Moscovo?

JC:
Ora, como é que sabíamos. Começávamos a transmitir, este diz isto, tenho de ouvir aquilo, temos de ouvir a outra coisa, olha que aquilo é muito interessante. Começávamos a comunicar umas com as outras e ela dizia, a senhora já era de mais idade, assim como a Celeste, sabia mais que nós, que éramos mais miúdas na mocidade, e lá vínhamos todas. Daí em diante, começamos a perceber o que aquilo queria dizer, da PIDE, de isto daquilo, dos que prendiam, dos que não prendiam. E ouvia-se aquilo. Na rádio.

MAB:
Aqui nas Ilhas

JC:
Aqui nas Ilhas. Lá nas Ilhas, ao pé da minha mãe. Mas íamos às escondidas.

MAB:
Ouviam dizer ou conheciam algumas pessoas

JC:
Não conhecíamos ninguém

MAB:
Que fossem presas

JC:
Cá na minha aldeia, não demos por ninguém. Lá por ninguém ter sido preso ou que tivesse sido castigado ou nada. Na minha aldeia não.

CM:
Em Arraiolos?

JC:
Em Arraiolos também não me lembro.

MAB:
Há pouco falava que gostava muito de mini saia

JC:
Eu gostava

MAB:
Ali na parte da adolescência que usava mini saia. Como é que era a vida aqui nas Ilhas para as raparigas ou em Arraiolos? Usavam mini saia, mas às vezes não eram criticadas? Como é que era assim a vida das jovens, sobretudo das jovens raparigas?

JC:
Das jovens raparigas, éramos a gente, era fazermos os nossos bailaricos. Tínhamos uma sociedade, que era em frente à minha casa, que hoje já não existe, que aquilo caiu tudo, infelizmente. Não temos sociedade, não temos nada nas Ilhas, porque tudo tem acabado, mesmo que a gente peça ajuda, ninguém ajuda. Infelizmente.
E então quase todos os fins de semana havia bailaricos e a gente ia para os bailaricos com os namorados.

MAB:
Iam com os namorados?

JC:
Pois, com os namorados

MAB:
Sem os pais?

JC:
Não, não. Os pais atrás, as mães iam com a gente. Ficavam na cadeira de trás, com os xailes pretos nas costas e a gente andava a dançar. Eu estava com o meu namorado, em casa já por fim, eu casei com 26 anos, o meu marido foi marinheiro dois anos. Eu estava assim num sofá grande, como estou assim aqui, com o namorado, mas já foi assim para o fim dos anos quase de estar a casar. É que ia para casar, que a gente namorava à janela. Não tínhamos ordem de ir para casa. As mães eram rigorosas, mas algumas não viam nada. Queriam ver tudo e não viam nada.
A minha mãe estava ali onde está a Celeste, e eu estava aqui no sofá, ou mais perto com o meu marido, a namorar.

MAB:
Em casa

JC:
Em casa, está a ver.

MAB:
Era em casa?

JC:
Era em casa o último ano, o último ano já pedida para casar. Outros anos era à porta ou à janela.
Eu namorei muito. Eu namorei muito por escrito. Olhe namorar, namorar, só namorei o meu marido. Aos dezoito anos.

MAB:
O que é que era isso de namorar por escrito?

JC:
Era sairmos da escola, fazíamos o escrito: Olha vem. Gosto muito de ti, vem ter comigo a tal sítio. Eu vou à fonte. Íamos à fonte, com o cantarinho

MAB:
Não tinham água canalizada?

JC:
Não tínhamos água, não tínhamos pão. Eu, morávamos nas Ilhas, em solteira, na Ilha do Castelo, e quando casei fui para a Ilha da Boavista, já estou casada há 53 anos, 45 anos que eu estou casada. Íamos ao pão para a semana inteira, à Ilha da Boavista, para a semana inteira, a minha mãe juntava ali o pão, a gente levava o dia inteiro com o pão, debaixo para cima a brincar. E depois aquilo havia uma grande rivalidade entre as duas ilhas, havia lá uma grande pedra, ao pé da Igreja. Aí, à igreja, aí na parte rural, havia uma pedra muito grande que a gente chamava-lhe a pedra da avó.
E então como a gente lhe chamava a pedra da avó, a gente, os rapazes andavam na escola de baixo, que não se juntavam com as raparigas, e a gente andava onde é agora a creche que era onde era a nossa escola. A escola das meninas. A gente punha lá o escritinho e púnhamos debaixo de uma pedrinha. Depois eles vinham da escola de baixo, agarravam o escritinho e liam: Olha ela vem à fonte, às tantas horas. Levávamos horas e horas e horas na fonte, a carregar a fonte. Às vezes partiam-nos os cântaros, porque eles eram pedrada para cá, pedrada para lá, porque não queriam a gente à fonte, depois eles tinham ciúmes da gente. Eu namorei muitos rapazes. Depois eles tinham ciúmes uns dos outros e eu é que a havia de namorar, e tu é que a fostes namorar, tu é que foste pôr o escrito, tu é que não foste lá pôr o escrito. Até que partiam os cântaros à gente. A gente chegávamos a casa sem água nem cântaros. A minha juventude foi muito linda.

MAB:
E a mini saia, como é que tinham conhecimento dessas modas novas?

JC:
Olhe eu era das que usava sempre mini saia.

MAB:
Pois, mas onde é

JC:
Gostava.

MAB:
Sim, mas onde é que via lá a moda da mini saia?

JC:
Não havia lá moda nenhuma, eu gostava de mini saia, punha a mini saia e acabou.

MAB:
Mas viam na televisão, nas revistas?

JC:
A gente lá tinha televisão

MAB:
Mas então como é que

JC:
Mas eu usava sempre mini saia. Quer dizer de pequenina comecei a usar o fato curtinho e não deixei de usar, pronto. Ainda andava nos tapetes e ainda usava mini saia, porque desde de pequenina eu era a mais pequenina, era a mais mimosa. As minhas irmãs, tinha uma irmã que sabia coser muito bem, como a minha ti Bia, cara linda, que era uma bela costureira. E ela fazia os fatinhos para a gente, ela é que cosia os fatinhos para a gente. E depois eu como era a mais pequenina, ela fazia as sainhas curtinhas, eu era muito magrinha, eu casei pesava 46 quilos, o meu vestido de noiva serve assim metade.
E então usei sempre mini saia. Depois eu era sempre muito alegre, cantava muito e dançava muito, ainda hoje danço e canto. E já não consigo cantar mais, porque tenho problemas, mas sempre gostei muito, e elas meteram-me Maria Papoila nessa altura, em pequenina, meteram-se Maria Papoila, só me conhecem por Maria Papoila. Em todo o lado sou a Maria Papoila.

MAB:
Chegou a trabalhar nalguma cooperativa?

JC:
Sim, sim senhora. Trabalhei na cooperativa da Oleirita, que pertenciam os senhores a Santana é que comandavam aquela cooperativa.

MAB:
Santana do campo?

JC:
Santana do Campo. Trabalhei lá cinco anos, no tomate, no arroz, mas na altura da Reforma Agrária, quando foi isso dos tratores eu não trabalhava no campo. Mas apoiava, trabalhava nos tapetes, mas eu ia a todo o lado. Saltava para cima das rulotes e ia com os trabalhadores

MAB:
Quando começaram as entregas aos proprietários?

JC:
Exatamente. Eu ia a todo o lado.

MAB:
Ia às entregas?

JC:
Ia às entregas, ia às entregas sem querermos entregar.

MAB:
Exato, pois.

JC:
Íamos às entregas sem querermos entregar, que era quando eles nos batiam e corriam atrás da gente, e com os cavalos, que fizeram isso a esse senhor, porque queriam as terras e depois mandavam para lá a GNR, para baterem nas pessoas, nos trabalhadores. Mas eu, fosse manifestações em Évora de tratadores, que fosse o 1 de Maio que se fazia no campo, lembro-me tão bem

MAB:
No Alto dos Cucos

JC:
Exatamente, eu ia também. O Avante que quando começou era uma coisa em barro, que se chovia aquilo era barro até aos joelhos. Eu fomos sempre, os meus pais, os meus irmãos, os meus cunhados. Tudo, ia toda a gente. Eu até hoje ainda vou ao Avante, é a festa que eu mais adoro e deus queira que ele nunca acabe.

MAB:
Há pouco falou aí nesse episódio, que era quando as pessoas iam às manifestações, quando os trabalhadores

JC:
Sim, sim

MAB:
Conte-nos essa história

JC:
Íamos a Évora

MAB:
Os trabalhadores rurais?

JC:
Os trabalhadores rurais

MAB:
Das cooperativas?

JC:
Sim. Íamos com as rulotes, com os tratores cheios de pessoas manifestarem-se ao pé dos ministérios, ao pé daquilo tudo. Os senhores da função pública e os senhores bancários, havia aquelas janelas altas onde eles estavam e de lá ofendiam a gente de tudo, mandavam rolos de papel cá para baixo para cima da gente. E saiam daqui malandros que vocês não fazem nada, e saiam daqui malandros que vocês só querem é dinheiro, e saiam daqui malandros que vocês só querem é terras para não as cultivarem. Quem não as cultivavam eram eles, eles. Porque nós temos um Portugal rico em terras e eles são pagos para não cultivarem. Eles são pagos

MVI_6558
JC:
Desde que esteve lá o senhor Cavaco Silva que começou a pagar aos senhores ricos para não cultivarem as terras. Ele é que começou a pagar. Desde aí que as terras começaram a deixar de serem cultivadas. A senhora vê uma terra cultivada aonde? Onde não veja uma amendoeira, onde não veja um abrunheiro, tudo coisas que levam muita água.
Cereais. A gente tinha tanques de arroz que eram herdades, cheiinhas de tanques de arroz, onde nós a ceifávamos, onde nós tínhamos uma máquina na fábrica do tomate que secava o arroz, para depois ser empacotado. Agora vem tudo de fora. Porque Portugal tem uma terra tão rica e ninguém a cultiva. Acabou tudo. E vai acabando tudo a pouco e pouco. Porquê? Por causa dos grandes senhores, dos grandes ladrões que a gente tem, no nosso país.

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JC:
A Associação de Reformados das Ilhas foi fundada só uma casinha, por um senhor que já morreu há muitos anos, que lhe chamavam, que lhe davam um nome, mas ele não era, mas era sempre o senhor Chinês

MAB:
E foi antes ou foi depois do 25 de Abril?

JC:
Depois do 25 de Abril. A casa fez este ano 41 anos. Fez este ano 41 anos. E então, foi feita por esse senhor e por mais pessoas, sem ganharem um tostão, construíram aquela casa toda, hoje um fazia uma porta, amanhã outro fazia uma janela, noutro outro levantava um bocadinho de parede, no outro o outro comprava uma cadeira e assim se foi construindo aquela casa. Depois esse senhor formou uma comissão, com outros senhores, esteve lá muitos anos, com outros senhores numa comissão.
Depois o senhor morreu entrou para lá outro senhor, que esteve lá, esteve lá à volta para aí de uns 30 anos ou mais, a comandar aquilo, a ser o presidente daquilo, porque era nessa altura, que não fazia mala não mudarem, de anos a anos. Então ele esteve lá esse tempo todo, eu fui você presidente desse senhor, fui presidente do conselho fiscal, fui presidente da mesa da assembleia, fui vice-presidente da mesa da assembleia. Depois o senhor teve um AVC, adoeceu ao fim de muitos tempos de lá estar, ao fim de muitos anos, teve um AVC, já era muito velhote, oitenta e tal anos, para aí 85 ou 86, teve um AVC, teve de deixar aquilo. Eu era vice-presidente, tive de me chegar à frente, porque o presidente estava doente.
Daí acabei o mandato dele como vice-presidente, houve eleições, houve outra comissão, entraram muitas colegas minhas

MAB:
Mulheres?

JC:
Mulheres, que se reformaram, homens poucos ou nenhuns. É quase tudo mulheres, quase tudo mulheres, há lá bem poucos homens. Eu não sei, se houver lá dois ou três homens é muito. Mais não há, de resto é tudo mulheres. Eu sou a presidente, trabalho junto a uma rapariga que é muito minha amiga e é o meu braço direito também, porque me ajuda em tudo, que é, ela não é presidente, mas é do conselho fiscal.
Ela é que paga as contas, ela é que faz as contas do dinheiro, ela é dirige o dinheiro. Eu não mexo em nada disso.

MAB:
E a associação de reformados o que é que fazem?

JC:
O que é que fazemos? Temos muita atividade. Temos o almoço do natal, que é enorme, temos o dia da mulher, que é enorme. Temos o dia da Mulher, temos as marchas que também fazem parte, temos a sardinhada também, temos muita coisa. Temos muita festa. Agora amanhã vou fazer filhoses para o carnaval. Todo o ano, temos ginástica, natação, Vidas Partilhadas. Muita atividade.
MAB:
E o teatro?

JC:
O teatro é uma coisa posta pela câmara que nos dá apoio, já fiz um o ano passado

MAB:
Que também está ligado à associação?

JC:
Que está ligado à associação. E então todas as que fazem parte das reformadas, as seniores entra quase tudo, no teatro, na natação, nas Vidas Partilhadas, entra quase tudo, ali da aldeia.

MO:
O que são as vidas partilhadas?

JC:
As Vidas Partilhadas é muito giro. As Vidas Partilhadas é, não é contar da nossa vida, há muita coisa que contamos da nossa vida, da nossa infância, mas as pessoas dizem às vezes assim: Vou agora para as Vidas Partilhadas contar tudo da minha vida. Não é. É contar o que foi a vida do antigamente, olhe é contar como é que nasceu jesus, é contar como é que era a vida da Amália, é contar os filmes da Amália, é contar a vida de muitos artistas, que nós não sabíamos o que era e ficamos a saber porque elas contam à gente e pelos filmes que nos dão, chegamos a estar duas horas, a ver a vida delas naquele filme. É isso que é as Vidas Partilhadas. Não é contarmos as coisas da nossa vida, da nossa casa, porque as pessoas dizem. Vou agora para as Vidas Partilhadas contar coisas que não interessam nada. Nas Vidas Partilhadas aprende-se muita coisa e faz-se muita coisa, como jogos, muitas coisas.

MO:
Para além da associação de reformados que outras coisas houve aqui nas Ilhas, que fossem assim fruto de trabalho voluntário, associativo, que outras coisas é que houve, muitas vezes trabalho gratuito a maior parte das vezes?

JC:
Antes do 25 de Abril?

MAB:
Depois

JC:
Olhe muita coisa. Olhe a matança do porco foi no sábado que eu faço parte, eu é que faço a comida toda, é que faço rechina é que faço tudo, nas vésperas vou temperar as carnes é que faço e no próprio dia comem.
A creche também faz, também faz, os caçadores

MAB:
A creche. Como é que nasceu a creche aqui nas Ilhas? Como é que a creche foi fundada?

JC:
A creche foi fundada por o senhor Jerónimo, que era o presidente da câmara. Jerónimo Lóios.

MAB:
Mas foi iniciativa camarária?

JC:
Mais ou menos. Foi uma ajuda. Mas quem deu o terreno foi a senhora Balbina Piteira, o senhor Augusto Piteira, que lhe morreu o filho no ultramar, mataram-no, não morreu, mataram-no no Ultramar. Então ele deu uma parte do terreno, da quinta dele, para construírem ali uma creche para os meninos. Construíram essa creche com a ajuda da câmara, com o Jerónimo Lóios, foi indo aos pouquinhos, pequenina, foi aumentando

MAB:
E como é que foi aumentando? As pessoas fizeram lá trabalho voluntário ou não?

JC:
Para fazerem de inicio foi trabalho voluntário. Trabalho voluntário como foi a ceifeira. Foi trabalho voluntário tudo. A creche quando começou de inicio com uma coisa pequenina foi trabalho voluntario das pessoas todas que tinham os filhos e não tinham onde os meter e fizeram o esforço para fazer aquilo, para lá os meter. Começou pequenina, agora já tem a ajuda da segurança social, já é uma IPSS, como a nossa e então daí foi crescendo, crescendo, crescendo, já lá têm as crianças todas de Arraiolos das aldeias, de todo o lado, tem muita criança, muita criança.

MAB:
Foi uma iniciativa da população?

JC:
Foi uma iniciativa sim, com o apoio da câmara, do senhor Jerónimo Lóios que apoiou muito, que era íntimo amigo do filho do senhor que deu o terreno. Do senhor Augusto Piteira. Era ele, era o Páscoa, a Carolina e o senhor Jerónimo. Eram eles, muito amigos.

MAB:
E o que é que a ceifeira? E como é que a ceifeira nasceu?

JC:
A ceifeira nasceu. Os supermercados pequenos que havia nas Ilhas, que se chamava o senhor Júlio Caixeiro, que se aproveitava dos pobres, eu tenho de já dizer, eu sou assim. Que se aproveitava dos pobres, a minha mãe comprava um pão e ele assentava dois. O meu pai ganhava as comedias, que lhe chamavam, de setembro a setembro. Quer dizer que quando recebia o dinheiro de setembro a setembro, não chegava para pagarem, ficavam logo a dever, porque ele no lugar de por um pão que a gente levava, punha dois. No lugar de por um quilo de açúcar punha dois. Porque assim é que eles enriqueceram. Porque eles nunca trabalharam, porque eles nunca trabalharam e eram ricos tinha de lhes vir de algum lado. Porque nós fartamo-nos de trabalhar e nunca enriquecemos e eles enriqueciam sem trabalho, tinha de vir de algum lado. Faziam assim.
E era o senhor Juncal, que lhe chamavam cá na outra ilha, que é onde eu moro, na Ilha da Boavista. Depois deu-se o 25 de Abril, quando se deu o 25 de Abril eles começaram a entrar na reforma, velhotes. O senhor lá das minhas Ilhas, tinha só uma filha, não quis saber daquilo para nada, que era professora. E ele fechou. E depois o de cima, tinha também filhos, depois como se deu o 25 de Abril e estavam sempre a chamar-lhe nomes e és um fascista e não sei quê. E ele passou-se e já estava também idoso e fechou também aquilo.

MAB:
Fechou a loja?

JC:
Tinha um talho, tinha um talho, que era também onde a gente ia à carne e uma mercearia. A minha mãe trabalhou uma vida inteira para ele, a encher carne para esse talho. Fecharam.
Depois não havia nada, houve a iniciativa do senhor Augusto Piteira, dar esse terreno que é onde é a ceifeira, que também era dele, foi feita uma ceifeira, que lhe puseram esse nome da ceifeira, mas era um supermercado enorme. Ali comprávamos tudo. Era talho, era gás, porque nessa altura já havia gás, era gás, porque deixou de haver petróleo, passou a haver gás. Era gás, era carne, era fruta, era tudo, a gente comprava naquela ceifeira. Tinha uma refeição como tem a refeição dos reformados. A comissão foi acabando, uns foram morrendo, os novos já se sabe como é que é, não querem responsabilidades, não querem entrar, aquilo chegou ao ponto que as pessoas tiveram que arrendar aquilo. A todas as pessoas que lá estavam, que arrendaram aquilo, não pagavam a renda, foram montar cafés, outros abalaram porque não queriam. Aquilo acabou por fechar

MAB:
Mas então a ceifeira era uma cooperativa?

JC:
Era uma cooperativa

MAB:
De consumo

JC:
De consumo. Feita pelo povo, tanto que não a podem, não puderam vender a ninguém, porque aquilo era do povo. Foi doada à junta de freguesia para a junta de freguesia

MVI_6560
JC:
Fazer lá o que nós queríamos, porque não era ela que ia escolher, porque não foi a junta de freguesia que a fez. Nós escolhemos um centro comunitário. Já está com a planta feita e o projeto há dez anos. Acho eu que está para ser começado brevemente, brevemente para um centro comunitário.

MO:
E o que vai ter esse centro comunitário?

JC:
Esse centro comunitário acho eu que é para, pessoas que queiram lá ir, idosos que queriam lá ir passar um bocado, pessoas que não tenham onde ir tomar banho, que tenham onde ir tomar banho. A gente não sabe ainda bem se irá também pessoas que não são capazes de fazer comida fazerem, é um centro comunitário para apoio de pessoas que não possam fazer nada. Penso eu que seja assim, porque eu ainda não vi o projeto, ainda não vimos nada, há dez anos que estamos à espera. E estamos assim.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Entrevista a Maria Amélia Paiva

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição
Entrevistada: Maria Amélia Paiva (MAP)
Entrevistadora: Manuela Oliveira (MO)
Data: 17 de outubro de 2023
Transcrição: Diana Henriques (14-15/11/2023)

Ficheiro MVI_6062
MO
Maria Amélia, bom dia
MAP
Bom dia
MO
Obrigada por nos conceder esta entrevista
A senhora tem uma vida bastante longa e tem muitas coisas por contar, mas vamos tentar que primeiro vai ter de explicar como era sua vida antes do 25 de abril, onde nasceu, como é que viviam e depois o ir para a escola, a sua infância como é que foi, explique lá
MAP
Eu fiquei sem mãe tinha quatro anos, depois fiquei amparada por os familiares, tenho só o ensino primário, fiz a primeira classe em Évora, depois vim para Portel para casa de uma tia, irmã do meu pai e fiz aqui até à quarta classe.
E regressei para Évora para o meu pai que já lá estava a minha avó a tomar conta dele. A vida deu muita volta, eu lembro-me da miséria, meu pai era albardeiro, tinha um ordenadozinho, mas era pequeno e lembro-me de ir para as bichas para apanharmos certas coisas.
A depois cresci, casei-me, a pois sim depois casei-me e fui para Lisboa e tive a minha filha. O meu marido trabalhou nos Monumentos Nacionais, estava bem, mas desafiaram-no para ir trabalhar por conta dele e ele foi, mas quando se apercebeu já tinha dívidas e deixou. Eu pedi para ele ir para a Alemanha, porque tinha lá muita gente amiga, e ele foi, teve lá nove anos. Eu fui lá duas vezes, mas não gostei de lá estar e a minha filha também não gostou e viemo-nos embora para Portugal.
A minha filha fez cá a primária e depois começou o estudar com muito sacrifício, eu trabalhava na costura noite e dia para ela poder estudar. Depois de fazer o primeiro ano já foi para Évora, porque aqui não havia ainda o ciclo. Ela depois fez uma formação, o pai veio-se embora, mas a câmara deu-lhe emprego, isso agradeço ainda no tempo da Dona Manuela. Ela arranjou emprego, mais tarde ela fez a vida dela e casou, a Dona Manuela por acaso é madrinha dela. E então tem um filho, e neste tempo todo arranjei trabalho no lar, como chefe de cozinha, tive, trabalhei lá vinte e dois anos só tive dois meses em casa quando fiz uma cirurgia, tirando isso nunca tive uma falta, fui sempre muito pontual. Tive um provedor da Misericórdia muito bom, que me deu sempre ordem para o comer, para tratar os idosos dentro da cozinha como eles lhes apetecia. E eu fiz sempre a vontade, ainda hoje quando vou a Évora o vou visitar, que ele ainda é vivo.
MO:
Maria Amélia, conte-me como foi, como soube, estava cá no 25 de abril?
MAP:
Estava na Alemanha
MO:
Estava na Alemanha. Como é que soube do 25 de Abril?
MAP:
Antes do 25 de Abril passamos muito.
MO:
Não, como soube?
MAP:
Como soube, como soube.
O 25 de abril foi assim, eu estava na Alemanha, de manhã já se sabe o emigrante põe logo o rádio para saber as notícias do seu país e ali começaram a meter as notícias de Portugal. No 25 de abril, ora, saíram para a rua, um chamava um, outro chamava outro e a festejar o 25 de abril pensando que se vinha para melhor. O 25 de abril realmente trouxe algumas coisas de bom, mas outras não. O pobre continua a ser pobre, o médio a mesma coisa e o rico ainda mais. E nós ficamos a olhar e a observar tudo. Eu contínuo um pouco melhor, mas ainda consigo trabalhar com 85 anos na costura, tenho uma lojinha no mercado municipal de Portel, para juntar à reforma para me poder tratar e poder alimentar. Porque, mudou, como digo, muita coisa, mas pouca. A câmara é belíssima, facilita muito, em muita coisa.
MO:
Dê lá exemplos do que a câmara faz para as pessoas, dê lá exemplos.
MAP:
A câmara dá espetáculos. Temos os seniores, eu também entro nos seniores, ainda com esta idade, ainda toco cavaquinho. A tuna, fui das primeiras na tuna, que com isto da epidemia parou, mas vai começar novamente, lá estarei. E faz uns passeios, também, quer dizer tem muitos eventos, para os idosos e espetáculos não faltam, porque temos um auditório muito bom e nós frequentamos o auditório com frequência, porque eles têm ballet, tem teatros, tem muita coisa.
MO:
Então e sente que a vida das mulheres se modificou?
MAP:
Sim, a vida das mulheres modificou em muito aspeto, por mim vejo
Eu hoje sou viúva, mas hoje faço uma vida muito melhor do que aquela que fazia antigamente, que antigamente, era tudo cheio de sacrifícios. E hoje eu sou muito independente, vou para onde quero, vou beber o meu café, por isso trabalho para poder ter essas coisas.
MO:
E sente que a vida das outras mulheres também se alterou?
MAP:
Sim, mudou, mudavam todas. Mudaram, a vida das outras senhoras mudaram todas. Nós temos grupinhos, juntamos, falamos, mas nem todos os grupos às vezes nos agradam, porque, isto é, como em tudo, nós muita coisa agradam-nos outras não nos agradam, e cada um faz a sua vida. O 25 de abril aqui na terra mudou muito, porque temos o centro de saúde também, o centro de saúde é bom, quando são bons médicos, porque eu tive um problema e para me tratar tive que ir particular, porque aqui não ia nem para frente, nem para trás. E então fui, a minha filha levou-me particular e fiquei sabendo que tinha problemas de coração, talvez derivado a muitos desses problemas que a gente tenha passado no antigo.

MVI_6063
MO:
Vamos falar então Maria Amélia. mais um bocadinho de mudanças sociais a seguir ao 25 de abril.
MAP:
O 25 de abril, ainda ficou por dizer uma coisa, mas vou dizer como a minha filha foi para Évora estudar, fez uma formação e hoje está na câmara de Lagos. Faz a vida dela, independente, mas é muito minha amiga. Todos os meses me vem ver e acompanha-me sempre aos médicos. E com isto, os jovens hoje são todos independentes, cada um escolhe aquilo que quer e faz aquilo que quer.

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MO:
Passados 50 anos que foi do 25 de abril, passados 50 anos, o que é que acha que foi, foram as maiores transformações, na sociedade aqui na vila.
Já falou na participação das mulheres, na liberdade dos jovens, na cultura, no desporto, fale um bocadinho sobre isso.
MAP:
Depois do 25 de abril, eu acho que pouco ou nada mudou, porque ainda há muito pobreza, há pessoas com reformas de 50 e 100 euros, que isso nem dá para comer uma semana, penso eu, para pagarem uma renda de casa, essa gente ainda vive pior do que eu. Apesar de eu ter dificuldades, mas acho que essa gente passa muito, que eu tenho muita pena dessa gente e quando posso ajudo. Eu entro em tudo quanto me pedem em ajudas eu colaboro sempre, com o pouco que tenho colaboro sempre.

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MO:
Muito importante, do que se lembrar fale.
MAP:
A câmara tem uma coisa boa para os reformados e a junta da freguesia. A junta da freguesia faz um almoço com as freguesias todas, em convívio todos, é um dia emotivo, muito bem passado. Eu quase sempre na feira medieval, que é para eles também irem à feira. E depois, a câmara também faz, a junta faz um passeio que agora vamos novamente a Vila Viçosa e dá o almoço e o pequeno-almoço. E depois temos o almoço do Natal que é da câmara, onde a câmara dá um almoço e um lanche e um presente, dá sempre uma lembrança e vamos todos muito felizes da nossa vida para casa.
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MO:
Mas houve muitas mudanças
MAP:
Quer saber das viúvas. As viúvas antes do 25 de abril, nós hoje achamos-lhes graça, não é? Eu como vejo muitos programas de história, às vezes dizem que isso já vinha de outra nação, de andarem assim, vinha de outra nação, que tiveram cá e ficou o luto. O luto vinha da azeitona preta, na história dizem isso, e então elas andavam todas de preto, meias, xaile pela cabeça, andavam anos e anos, e às vezes até morrerem, andarem, andavam assim. Só que hoje não anda ninguém assim, a gente põe ali os primeiros meses e tira o luto e cada um faz a sua vida. Morreu, morreu, nós não somos eternos.
O mesmo aconteceu a mim. Com a idade que tenho, ainda me lembra das pessoas andarem assim vestidas e como eu me visto hoje. Está tudo diferente.

MVI_6068
Mo:
Como era a sociedade antes do 25 de Abril?
MAP:
Quer dizer, isto do antes do 25 de abril, como já falei nas viúvas, de andarem, assim vestidas, era tudo o respeito que tinham pelos maridos e o medo. O medo dos familiares, tudo, censuravam, os familiares censuravam tudo. E hoje os familiares também já aceitam, tirou, tirou, pronto desde o momento que os respeitemos em vida, depois de mortos, já não faz diferença. É o que eu faço.
MO:
E a maioria das senhoras, aqui, a maioria das senhoras, agora também é assim, não é?
MAP:
A vida das senhoras não era
MO:
Mas é diferente do que era de antes, também mudou Maria Amélia
MAP:
Sim, mudou tudo nesse aspeto, mudou tudo.

MVI_ 6069
Mo:
Antes do 25 de Abril, fale lá
MAP:
Controlavam tudo, sim. Controlavam tudo sim. Quando eu estive em Lisboa, eu trabalhei ainda no Simões, em vestiário e tirava um ordenado melhor que o do meu marido, porque fui para as empreitadas das Áfricas. E ele como via que eu ganhava mais, viemos passar o Carnaval a Portel e ele teve-me cá oito dias para eu não me poder apresentar ao serviço, para deixar aquilo. Essa foi a pior coisa, às vezes sonho com isso.
MO:
Isso foi antes do 25 de abril?
MAP:
Antes, então, tinha a Amelinha sete anos.
E eu começava a trabalhar às seis da manhã e saía às duas. Fazia o horário seguido. E depois, eu morava numa parte de casa com uma prima do meu marido. Ela entrava às duas e chegava a casa depois de fazer o horário, eu tomava conta do filho, ela tomava conta da minha filha de manhã e eu tomava conta do filho dela da parte da tarde.
MO:
Em termos de creches e apoios à infância também não houve diferenças? Aqui em Portel.
MAP:
Depois do 25 de abril, depende. Depende também, às vezes hoje também se ouve reclamações, porque nem toda a gente tem, pensa no mesmo. Mas o apoio à infância, a câmara também tem auxiliado bem.

MVI_ 6070
MO:
Vou-lhe perguntar Maria Amélia, houve mulheres aqui que participaram ativamente na política? Houve mulheres presidentes de junta? Mulheres vereadoras? Mulheres na assembleia municipal? Houve mulheres que estiveram à frente da reforma agrária? A Maria Amélia esteve?
MAP:
Eu não assisti a isso. Não estava. Mas depois ainda me lembro de haver a agrária. E das pessoas andarem trabalhando. Eu como herdei da parte do meu marido, uma pequena horta, que eram cinco filhos e cada um teve a sua parte.
Ainda me lembro de uma pessoa dizer que ia apanhar a horta.

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MAP:
E eu fui ter com essa pessoa e disse então vá. Se quer apanhar a horta então vá. Tire-a lá à gente. Eu faço o pouco que lá tenho e a pessoa calou-se e nunca mais me disse mais nada. Mas quer dizer, a agrária foi muito boa para muita gente, mas acabou por ficar em nada.
Quer dizer, as herdades ficaram desbravadas, limpavam tudo, traziam tudo muito aconchegado. Pronto, trabalhavam com gosto pelo que era uma coisa, de uma coisa que tomaram conta depois do 25 de abril. Mas tudo isso acabou. Muita gente trata dos terrenos e muita gente não trata. Porque é assim, os salários de quem vai tratar não dá. Não dá. Por exemplo, eu tenho um pequeno olival, se não fosse o pequeno subsídio que me dão, ao fim do ano, que o meu marido ainda tratou disso, não dava para a apanha da azeitona. Porque quer dizer que quem faz a apanha não passa recibo, e nós temos de pagar.
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MO:
Em 1980, eu soube que havia um grupo de mulheres, que se juntava na rua de Milfontes, e que nas escadinhas se juntavam nas noites de verão
MAP:
Eu hoje, tenho uma casinha com sacrifícios, o meu marido ainda a fez, porque era pedreiro. Mas antes de ter a minha casa morei 27 anos, numa rua que vai para a câmara, tinha a parte de lado que saía para a rua, mas a parte da frente da casa era nas escadinhas. Era de aluguer, pagava a minha renda e lá estava. Mas era uma vizinhança muito boa, aonde eu moro a vizinhança também é boa, porque eu sou uma pessoa que vou daqui da loja, meto-me me casa e os vizinhos ficam na casa deles, só por uma doença ou por uma morte é que a gente se vê, praticamente. Mas na rua de Milfontes era uma família. Nós fazíamos bailes, em beneficência já do lar que ainda não tinha aberto. E eram bailes desde o princípio da rua, a rua não se presta para essas coisas, porque ela não aguenta, mas era uma rua formidável, porque todos colaborávamos. E ali se fazíamos os bailes de verão. Esses bailes todos em benefício do lar, vendíamos cervejas, sardinha assada a um canto, que chamavam o canto do velho carouco.
E ali se juntava o pessoal todo e fazíamos o quiosque nesse cantinho. E depois era o baile até às tantas, e depois do baile acabar, dava-se por acabado, juntava-.se ali a Dona Manuela, Jorge Garcia, companhia limitada, cantando, ele cantava uma canção muito, que já não me lembro qual era e tocava guitarra. Era até de manhã. Mandava aí umas seis horas da manhã ia tudo para a sua casa e lá ficávamos nós na rua, com uma garrafinha de vinho do Porto na janela do velho Carreo e uns copos, para se beber, e começávamos a varrer a rua do princípio ao fim, para quando os camarários passassem, estar tudo limpo. E eles iam felizes da sua vida para o emprego, porque a gente éramos mulheres de trabalho.
MO:
E aquele grupo que se juntava mesmo sem ser em festas, que se juntava nas escadinhas
MAP:
Sem ser em festas, também se lá juntávamos sempre. Cada um contava a sua história, falava-se da vida, outros cantavam. Eram serões muito bem passados, muito bem passados, que esses serões vêm no tempo da Doutora Manuela e do Doutor Vidigal, que por acaso na vida dos meus sogros, iam muito à quinta. Doutor Vidigal, muitos almoços, muitos jantares lá se passaram. São belos tempos, isso eu também além de passarmos miséria, quando se juntávamos todos era uma alegria porque vivíamos felizes assim.

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MAP:
Quer dizer, nessa época eram, vivíamos felizes, não é já depois do 25 de abril lá nos juntávamos todos, como já disse, e cada um dizia as suas coisas, não estavam homens, cada um dizia o que lhe apetecia. Tanto se falava mal como se falava bem, mas tudo ria às gargalhadas, éramos felizes.

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MAP:
Eu fui para a horta da minha sogra e pronto, nessa altura vim e depois como a minha filha andava à escola, fiquei em casa da minha cunhada e isso lhe agradeço. A minha cunhada deixou-me lá estar, tinha um quarto, e eu estava lá e a minha filha também lá, ficava mais perto da escola.
MO:
Em Évora?
MAP:
Cá. É Maria Joana, que também morava na rua de Milfontes, até arranjar casa. Essa casa também era lá ao pé nesse cantinho onde ajuntávamos todas e ali arranjei casa e vivi lá 27 anos.
Das antigas já só lá está a Rosa, a minha cunhada Maria Joana e a outra que o senhor que morava em frente a mim que já é viúva, mas essa não entrava nas festas.
MO:
Como é que era a comida antes e depois do 25 de abril?
O que é que comiam?
MAP:
A minha comida é a mesma coisa. Eu gosto muito de grão, de feijão, cozido, ainda esta semana fiz um chispe, uns bifinhos, essas. Toda a gente me diz, uma mulher sozinha fazer comida, faço comida à minha vontade, ao fim de semana, ao domingo faço um doce, faço arroz-doce, outras coisas. Elas falam muito do meu arroz-doce lá no lar. Eu era uma mulher muito económica, até o leite em pó eu fazia para o arroz-doce, por isso é que eles gostavam de mim. Eu tinha os meus dias, um dia fazia arroz-doce, noutro domingo fazia pudim, quer dizer desencontrava, para eles não enjoarem. E durante a semana também era salteado, nunca dava a mesma fruta ou as mesmas coisas e se dava para fazer um doce, também fazia. Tive sempre, sempre um provedor muito bom para fazer a vontade aos idosos.

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Sempre fui assim. Mas quando havia os festejos do25 de abril, que aqui festejam, eu estava na casa da minha cunhada, a gente punha na varanda as mantas alentejanas, enfeitávamos a rua. Depois umas eram de um partido e as outras de outro, ora púnhamos de um partido, ora púnhamos de outro. Nunca houve confusão, naquela rua nunca houve confusões. E para mim era tudo igual. Eu dava-me bem com todos.
MO:
A vida na Alemanha era diferente?
MAP:
Não lhe sei dizer. Na Alemanha não trabalhei. Quer dizer tive num aviário, foi uma semana. Eu gostava do trabalho, mas eu tinha uma colega do Norte e essa ficou noutro serviço. Um dia mandaram-na limpar as câmaras frigoríficas e ficou lá fechada. Quando achamos falta dela tivemos de lá voltar e ver onde ela estava, porque não estava no carro, estava fechada dentro da congelação. Ela disse, nunca mais eu venho para este trabalho, eu morria aqui se vocês não achassem falta de mim. E eu disse, tu não vens, eu também não venho, não me mandem para lá. Não fui, depois vim-me embora, não é, e cá tive muito tempo sem trabalhar até arranjar no lar.
Como fui para o lar, quer dize a diferença não foi muita, mas quando saí já tinha um ordenadozinho, qual quê, não era muito mau, mas já dava para viver.

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MAP:
Era para juntarem alguma coisa para virem para Portugal
MO:
Mas e os alemães?
MAP:
Os alemães faziam a vida deles
MO:
Mas muito mais…
MAP:
Isso não sei doutora Manuela, mas havia lá pessoas do tempo da guerra, que ainda fiz bainhas de calças para eles, que eles diziam que, para a minha filha, que não levasse a minha filha para lá. Eles eram os próprios que aconselhavam. Que a deixasse estudar cá e que a deixasse estar cá.
MO:
Porquê?
MAP:
Não diziam porque era. Talvez tivessem medo e dessem esse conselho, porque ainda foram pessoas do tempo da guerra. Por acaso davam muitas vezes esses conselhos. Os outros também trabalhavam e faziam a sua vida. E também há emigrantes que fazem uma vida independente.
DH:
Achou uma grande diferença, por exemplo nas casas da Alemanha?
AMP:
As casas na Alemanha, para mim, onde eu morei, quer dizer a primeira era um apartamentozinho, morava num primeiro andar, a construção era diferença. E depois é que tive uma casa, quando fui já com a minha filha, era obrigado, o marido arranjou casa. Tinha um quarto, uma sala grande, a cozinha, casa de banho e tinha a cave. Todos tem uma cave, mas não era grande. Mas era um rés do chão, já estávamos mais à vontade, porque na outra casa quando queríamos tomar banho, tínhamos de pedir para ligarem o cilindro e a água quente, essas coisas.
E ainda não temos tudo à nossa disposição. Por isso, para mim, estamos melhor em Portugal, não há como o nosso país.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Entrevista a Maria do Carmo Serrano Cardoso

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Maria do Carmo
Entrevistada: Maria do Carmo (MC)
Entrevistadoras: Maria Ana Bernardo (MAB) e Manuela Oliveira (MO)
Transcrição: Diana Henriques (05/12/2023)

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MO:
Maria do Carmo apresente-se então
MC:
Eu sou a Maria do Carmo, natural de Portel nasci aqui, fiz aqui a minha vida e aqui continuei a viver.

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MC:
Tive uma infância boa. A minha mãe trabalhava numa casa numas famílias ricas, nunca faltou nada na mesa. Nunca passei dificuldades. O meu pai era trabalhador rural e nunca nos faltou nada. Tive uma infância feliz, na casa dos meus pais.
MO:
E estudou
MC:
Fui à escola, fui até à quarta classe, era uma excelente aluna. E houve uma altura em que terminei a quarta classe e os professores, as professoras dessa altura foram falar com os meus pais para eu ir para a quinta e sexta classe, que era o que havia na altura. E o meu pai, tenho esta versão ainda hoje gravada na minha, na minha ideia que o meu pai disse aqui não à nem quinta, nem sexta, o cesto é o da azeitona. Ela vai à azeitona. E eu a sair da escola com onze, doze anos fui à azeitona.
MAB:
Começou a trabalhar?
MC:
Sim, com grande desgosto meu. E comecei a trabalhar.
MAB:
E a partir daí continuou?
MC:
E a partir daí continuei sempre a trabalhar como meu pai. Sempre. A trabalhar no campo.
MAB:
E os seus irmãos?
MC:
O meu irmão mais velho já teve uma vida diferente da minha. Fez a quarta classe, também era muito bom aluno, era afilhado do doutor Galhordas e ele disse o António José vai para Lisboa, vai estudar, vai trabalhar. Foi trabalhar para uma fábrica, havia uma tia minha que vivia em Lisboa e ele foi para casa dessa minha tia. E ele trabalhava na fábrica e à noite ia estudar. O padrinho pagou-lhe os estudos e ele avançou na vida. Infelizmente, já cá não está entre nós. Faleceu de uma doença, dessas doenças graves.
E o meu outro irmão mais novo já foi mais burrinho. Andou sempre no campo, mas não aprendia nada, mas nessa altura se ele tivesse a ideia que eu tinha, o meu irmão teria ido já, já havia, as coisas já eram de outra maneira. A minha mãe já dizia, se ele fosse bom na escola já ele ia estudar, mas ele não. Até a quarta classe ele custou a fazer, ele não aprendia, tinha dificuldades em aprender. E foi assim a nossa vida.
MO:
E lembra-se do 25 de abril?
MC:
Claro que me lembro do 25 de abril. Olhe o 25 de abril foi, eu acho que foi das melhores coisas que houve. Porque antes do 25 de abril eu morava numa rua, que era a rua do Alfoz (?) a seguir ao castelo e há ali um largo que é o largo Miguel Bombarda, onde só viviam ricos. Eram quatro, que viviam lá, era o Manuel da Corte, o Fonseca e os dois Amarais. E lembro-me perfeitamente do meu pai, ir para aquele recinto, aquele largo, ele e mais homens a pedir trabalho à porta desses ditos ricos e eles vinham à porta e tu, tu e tu, saiam para aquele lado. E a maioria ficavam lá, eram escolhidos, aqueles que eles lhes agradavam mais. E então havia muita muita muita miséria.
MAB:
Quando as pessoas não tinham trabalho o que é que faziam?
MC:
Viviam que era miséria. Levavam os dias ali no largo da agrícola, naquele largo onde é a caixa geral de depósitos à procura de trabalho. Se alguém passava, que lhe propusesse trabalho. Era miséria, miséria. Eu vivi numa rua que era uma rua mesmo só de pobreza, onde só havia, muitos filhos. Nós eramos três, mas havia além casas que havia sete e oito irmãos. Que era mesmo, mesmo, mesmo miséria. A minha mãe tinha uma vizinha, que já faleceram, e essa vizinha, às vezes a minha mãe, trabalhava na casa dos ricos e trazia de lá coisas que lhe davam e diziam vai lá levar à Mariana. E ela ia-lhe levar coisas poucas, um bocadinho de pão, e um bocadinho de azeite e com isso ela fazia uma açordinha de alho para ela e para os filhos. E ela vinha à rua, lembro-me como se fosse hoje e dizia assim, hoje até vejo o sol bem, o que a Maria me veio aqui levar, fiz uma açordinha para mim e para os meus filhos, que nos soube tão bem, à não sei quantos dias que não comíamos.
MAB:
Na casa dos seus pais eles faziam matança?
MC:
Na casa dos meus pais faziam matança sim.
MAB:
E depois dividiam?
MC:
E dividiam sim. Aquilo no final ficava tudo em nada. Era um pratinho com chamavam-lhe na altura um jantar, um jantar de ossos. Com um bocadinho de toucinho, vai lá levar à menina, à vizinha Maria, à vizinha Antónia, à vizinha outra e a rua toda comia aquele jantarinho e a gente comíamos também só uma vez do porco. Era assim mesmo. Depois quando a outra vizinha fazia a matança, dividia por todos.
Havia igualdade entre todos. A vida eram todas iguais, mas havia mais amizades, porque não havia invejas, o que havia na minha casa, havia na outra e na outra. E era assim.
MAB:
E quando começou a ficar mais crescida e depois a pensar em namorar, como é que foi essas, como é que foi essa fase. Como é que era, como é que se relacionavam?
MC:
Olhe a minha fase do namoro foi complicada. Porque eu nas férias já ia a Lisboa, a casa de uma tia minha, a casa onde o meu irmão sempre viveu e estudou lá. E eu ia para casa dessa minha tia e então, conheci lá um rapaz, conheci lá um rapaz e comecei a namorar com ele. Depois vim para cá, por cartas e ia lá só de vez em quando.
MAB:
Por cartas
MC:
Por cartas. E há uma das vezes que o rapaz apareceu cá e eu parece que o estou a ver, que ainda não se usava cá aquelas grandes gabardines e ele já vinha de gabardine, com uma malinha na mão, todo muito finório e veio cá para falar com os meus pais. Foi uma carga de trabalhos, para o deixarem lá entrar, e porque não conheciam. Ele estava em Lisboa a trabalhar, mas era aqui de Viana do Alentejo. Era e é. Que é o marido que ainda hoje tenho. Mas foi muito complicado aquele namoro, a minha mãe porque ele estava em Lisboa e ele deve ter lá outra, e não casa contigo, e depois o que é que dizem aqui. Bem, foi uma confusão, tão grande, tão grande, que só eu sei o que sofri. E ele depois vinha e não ficava lá na minha casa, nem pensar. Ia ficar numa casa de uma tia minha, que também se conheciam, e ia lá ficar. Mas eu já lá não metia um pé na casa da minha tia, porque ele estava lá. Era muito complicado. Namorei assim seis anos. Cartas, ele vinha cá, mas mesmo complicado e a minha mãe sempre a bater o pé, ele deve casar deve, ele tem para lá outra, como ele aí aparece parece um doutor. E afinal namoramos seis anos e depois casámos e olhe ainda somos hoje casados. Era complicado.
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MC:
Portanto, os trabalhadores agrícolas.
MO:
Vai falar então um bocadinho sobre a sua participação política e cívica. Alguma associação ou algumas coisas que
MC:
Sim, eu pertenci à JCP na altura e depois comecei a fazer parte do sindicato dos trabalhadores agrícolas, que era na altura o escritório da reforma agrária, ali no, situado no largo do chafariz, na altura. E fazia parte lá também do sindicato e porque trabalhei depois também na reforma agrária e era lá que nós íamos receber o ordenado, ia receber o meu e o do meu pai. A esse escritório.
MAB:
Como é que a senhora, como é que chegou a fazer parte do sindicato, ou seja, como é que e porque é que se filiou na JCP?
MC:
Porque fiz sempre aquelas ideias, aquelas ideias políticas que ainda hoje as tenho. E tenho dois filhos que ela é política e ele enão tem nada a haver com a política. Já houve aqui um ano, que em eleições em Portel, ela fazia parte da lista do PCP, como faz hoje sempre, como ainda é hoje, e ele fazia parte da do PS. E eu fazia parte com ela, da dela, sempre fui, por isso, cada um tem as suas ideias. E o pai é uma pessoa reservada, não sabemos se ele é da esquerda, se é da direita. É uma pessoa muito reservada. Apertamos, apertamos com ele, mas ele não diz nada. Vocês querem é saber.
MAB:
Portanto essa situação política e essa vontade de participação pública foi sempre uma coisa mais das mulheres cá
MC:
Sim, sim, sim, sim, foi minha e a minha Lúcia também foi. Embora ela já tivesse vindo noutra altura e as coisas já tivessem tudo mais avançado, mas viveu tudo isso comigo. Íamos às manifestações, ela ia comigo
MAB:
Levava-a para as manifestações?
MC:
Sempre, sempre, sempre. Havia qualquer festa do partido comunista ela ia comigo e já ia dizendo versos, que era pequenina e não sei quê. A ler e já fazia sempre parte de tudo. E ainda hoje é. Está na câmara de Évora hoje.
MAB:
E as mulheres aqui na vila começou, notaram que elas começaram a sair mais depois do 25 de abril?
MC:
Sim, sim muito mais.
MAB:
E a participar mais?
MC:
Sim e a participarem mais sim. Apareciam mais em tudo. A irem já a um café, porque se faziam aqueles almoços, por exemplo a gente do partido comunista e depois acabávamos os almoços e já íamos ali beber o café ao, ali a restaurante. Foi diferente, sim. Com mais saídas.
MAB:
E atualmente as mulheres tem muita participação em muita coisa, as mulheres, mesmo as mais idosas, não só as jovens?
MC:
Têm, têm. Mesmo aqui no nosso meio. Em tudo, em tudo. A gente começa aqui já pela Universidade Sénior, as mulheres participam mais, eu também já participei, no teatro, nas histórias, agora como tenho a menina tenho o tempo mais ocupado. E participam muito, muito as mulheres, mais do que os homens.
MAB:
Porque é que acha que é assim?
MC:
Essa parte eu também ainda não sei bem explicar porquê.
MAB:
Mas aquilo que vê é que as mulheres participam mais
MC:
Ainda levei o meu marido, ainda fazíamos parte da tuna, mas só da tuna, que ele disse só da tuna, das outras coisas não vou. E depois lá a professora dizia, não conseguem trazer os maridos, os maridos. Uma dizia, vou trazer o meu. Ninguém lá aparecia, era só a gente. Fazia, vestia. A Maria Cristina vestia-se de homem e fizemos assim teatros, eu de mulher e era assim. E os homens não participavam muito. A gente daqui é mais as mulheres. A mulher é mais pra frentex.
MAB:
No fundo a vida da mulher, talvez tenha mudado mais do que a dos homens?
MC:
Se calhar sim, porque estavam muito fechadas e tiveram uma abertura e nessa abertura, elas foram avançando sempre mais e eles já mais na retaguarda.
MAB:
E os jovens hoje?
MC:
Ora, os jovens hoje têm uma vida totalmente diferente, tudo já mais, tudo já mais liberal.
MAB:
Acha que hoje aqui em Portel faz diferença para a vida que a pessoa, ser homem ou mulher?
MC:
Não, não, não. Não há diferença aqui. Não, a juventude hoje andam todos juntos. Eu vejo pela vida da minha filha, para onde vai um, vai o outro. E é tudo, são, fazem uma vida e um conjunto igual.
MAB:
Em termos de costumes, aquela critica que havia, em relação ao comportamento
MC:
Não, isso já não há. Havia no meu tempo, agora no dela, neste tempo agora as raparigas. Eu vejo pela minha, que com o marido fazem uma vida juntos, vão para todo o lado. Às vezes o meu marido critica. Então a Lúcia só gosta é de paródia já vai para a paródia outra vez com ele. Digo, deixa lá a rapariga, eu não fui vai ela.

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MAB:
A vila de Portel tem hoje mais coisas, oferece mais oportunidades às pessoas e condições de vida por comparação com o antes do 25 de abril ou não
MC:
Sim, sim. Antes do 25 de abril pronto, havia muita dificuldade, mas agora presentemente Portel está morto. O nosso Portel está morto. Não há trabalho e não tem nada a ver com o que era Portel e o que foi aqui há uns anos, já depois do 25 de abril.
MAB:
Ou seja, faz uma distinção, entre o que era antes do 25 de abril, o que foi essa.
MC:
Sim, o que foi a seguir e o que está a cair. Portel está a cair, agora nesta, está a cair, já caiu dentro de um buraco. A nossa vila está suja, não há trabalho e as pessoas está tudo refugiado em casa. Não, está tudo triste. Portel, não é Portel. Não é o Portel que a gente conheceu.
MAB:
Mas tem por exemplo condições para acolher as crianças como os jardins de infância,
MC:
Sim sim, isso tem. A escola, o nosso ciclo. Sim, sim. Temos o ciclo, que é um espetáculo, a nossa escola primária, aqui a ATL dos miúdos. Sim, tudo cinco estrelas.
MAB:
Mesmo para as pessoas mais velhas,
MC:
E para as pessoas mais velhas a Universidade Sénior. Este ano não sei como é que vai ser, mas também
MAB:
Existe um lar?
MC:
O lar, sim, um lar sim. Que devia ser maior, pronto, porque apanha aqui também, as pessoas das aldeias e as pessoas que não são de cá, de Évora e de outras terras que vêm, ter aqui. Podia também ser maior, acho que Portel já devia ter estendido mais. Ter um outro lar.
Agora esta creche onde está a minha netinha é uma creche já muito antiga, que precisava já além de, aquilo era um prédio já muito antigo, e aquele senhor, deu aquilo para fazerem uma creche. Aquilo tem as mesmas condições que tinha há 50 anos, está tudo muito velho, tudo muito degradado. Acho que as coisas deviam evoluir mais, com a época em que estamos. E uma vila que já é bastante grande e que faz parte aqui das nossas aldeias que ainda são algumas.
MAB:
Pois, porque é a sede de concelho.
MC:
É sede de concelho e é para aqui que vêm também, muitas crianças.
MO:
De qualquer maneira diga-me uma coisa, em termos do acesso à educação e à cultura e aos serviços de saúde, em relação a antes do 25 de abril há diferença aqui na vila?
MC:
Agora está muito mau. Nesta altura, os nossos serviços se saúde estão péssimos. Não temos médicos, os enfermeiros que aqui estão abalam. Queremos uma consulta, não a temos. Está mesmo muito, muito mau. Já houve uma altura, em que o nosso centro de saúde era um espetáculo, mas agora não. Muito complicado mesmo.
MAB:
As condições de vida das mulheres e da casa, das melhorias da habitação, de eletrodomésticos, se comparado com o antes do 25 de abril
MC:
Está muito melhor.
MAB:
A vida das mulheres hoje está muito mais facilitada?
MC:
Sim, sim. Mais facilitada. Até eu comparando agora a minha vida, a minha casa com a dos meus pais. Nem tem comparação. A minha mãe tinha um fogãozinho pequenino e fazia-se a comida ao lume, era o ferro com carvão. E não, nem havia, ferros de engomar, não havia, máquinas de lavar, frigorifico nem pensar.
MO:
Televisões?
MC:
Também não. Nós íamos ver a televisão à de uma vizinha que tinha, já tinha uma vidazinha melhor, viveu em Lisboa e depois de vir para cá, íamos ver tudo na televisão para casa da vizinha. Já quando a minha mãe teve uma televisão, já eu tinha os meus dezoito anos.
MAB:
Quando a sua mãe teve a primeira televisão.
MC:
A primeira televisão, sim. Aquilo era uma novidade grande. A gente estava sempre.
MAB:
Máquinas de lavar a roupa
MC:
Isso já foi muito mais tarde. Se calhar já quando eu casei ou estava para casara, quando a minha mãe comprou uma máquina de lavar roupa. Pois era tudo muito diferente. Muito, muito.
MAB:
Nesse aspeto a vida tem melhorado
MC:
A vida tem melhorado. Há outras coisas que que não, mas a vida melhorou, melhorou.
MAB:
O quotidiano, a vida das mulheres está mais facilitada
MC:
Sim, a vida das mulheres está mais facilitada. As mulheres iam para aqueles, aí para os rios lavar à mão. Iam de manhã à noite. Eu lembro-me perfeitamente da minha mãe ir e levar um bocado de pão e laranja. Era a comida. Que era o que havia. E a gente se ia mais o meu irmão, comíamos o pão todo e as laranjas, que era o que havia, quando ela ia para comer já não havia nenhum. Aquilo também era pouco. Isto quando eramos pequenos. Sim, lembro-me de irmos ali para um barranco.
MO:
E agora a Maria do Carmo vai lavar roupa?
MC:
Vai, vai. A Maria do Carmo agora vai lavar é a máquina de lavar, é a máquina de secar, pois. E temos isso tudo e é ferrinho para engomar, ali já com vapor, pois claro. Mas há outras coisas que podiam estar melhor e não estão.
MAB:
Por exemplo, o que é que a senhora achava que devia estra melhor e não está?
MC:
Olhe haver mais empregos para a juventude, para que o meu filho, até em Portel digo, os arredores, para que o meu filho e outros jovens como ele, não tivessem acabado os estudos e tivessem de abalar para o estrangeiro. O meu já lá está há nove anos, no Dubai, agora veio cá só para casar, com a miúda, com a Sarinha. E como ele, muitos mais.
MAB:
Ou seja, acha que muita juventude teve de sair, teve de sair?
MC:
Sim, sim, sim, muitos, muitos. A minha Lúcia não abalou porque ficou por aqui, a escola e não sei quê, casou com um rapazito que trabalha na câmara, pronto ficou por aqui. Mas muitos, muitos tiveram que sair. Sair e ir para o estrangeiro. Temos muita juventude nossa, que a gente conhece aqui de Portel, que a gente é fulano já está à não sei quantos, na Alemanha, na Suíça. Muita gente foi embora. Deviam estar cá no nosso Portugal. Mas são coisas que não estão na nossa mão.
MAB:
E a senhora quando ia fazer as campanhas como é que se organizavam? Como é que faziam? Iam para fora de Portel, era aqui, como é que faziam?
MC:
Quando é as campanhas organizamos todas, somos sempre o mesmo grupo e vamos apanhando alguma de alguma rua. E corremos aqui Portel e as nossas aldeias. Sim, e colaboram mais as mulheres que os homens.
MAB:
E quem é que conduz são os homens ou as mulheres?
MC:
Levamos sempre um condutor.
MAB:
É um homem?
MC:
Sim, sim.
MAB:
Ainda não são as mulheres?
MC:
Não, mas às vezes também vão a conduzir. Também vai a conduzir. Sim, às vezes vão a conduzir.
MAB:
A senhora tirou a carta?
MC:
Não, nunca tirei a carta. Porque o meu pai também por causa da falta de, do dinheirinho. Pois. Depois foi passando e foi passando. E depois vieram os filhos e fiquei por ali. Hoje tenho pena de não a ter tirado. Tenho carro, ela tem carta, a Lúcia tem carta, o Diniz tem carta, o pai tem carta e a minha ficou na gaveta.
MAB:
A prioridade foram eles
MC:
Exatamente, pois. Depois eles a estudar e tudo, eram os mestrados, muito dinheiro e claro essas coisas, havia outras prioridades e eu fui ficando para trás. Mas hoje já tenho pena, porque é que não fui, mas naquela altura, não podia, depois era os rapazes, um porque estava na universidade, outro porque estava a entrar e pronto. Tenho chauffeur particular.
DH:
Lembra-se como soube das notícias do 25 de abril ou o que fez no dia do 25 de abril?
MC:
Olhe do 25 de abril morávamos num monte, o meu pai guardava gado num monte. Que era o Monte de Valcabras e lembro-me do meu pai chegar a dizer.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Entrevista a Maria José Serra

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Maria José Serra
Entrevistada: Maria José Serra (MJS)
Entrevistadora: Manuela Oliveira (MO)
Localidade: Portel
Data: 24 de outubro de 2023
Transcrição: Diana Henriques (20/11/2023)

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MJS:
Antes do 25 de Abril, primeiro quero já dizer, que não tenho muita, muita recordação em termos de pormenor da minha infância e da altura do 25 de abril, mas tenho recordação de situações e hoje olhando para trás percebo as grandes diferenças do antes do 25 de Abril e do depois do 25 de Abril.
Eu já nasci, na casa da minha mãe, como era, e do meu pai, como era um segundo parto tivemos direito a uma parteira e então foi a parteira que fez o parto, portanto nasci lá mesmo em casa. Eu sempre tive uma grande diferença de vida em termos de coisas materiais, que os meus amigos mais novos ou mais velhos não tinham. Nós brincávamos essencialmente na rua e frequentávamos a casa de todos, embora a nossa casa fosse a rua. Eu notava realmente diferença entre a nossa casa e a casa dos meus amigos. A casa dos meus amigos era mais pobre, mais degradada, eu não sabia que era pobreza era, não tinham as condições que eu tinha na minha casa, porque eu tinha casa de banho, embora tenha perfeita noção e recordações de dar banho dentro de um alguidar de zinco muito grande que a minha mãe tinha. Portanto a minha mãe aquecia água na panela de ferro, no lume de chão, metia essa água no alguidar, dava banho primeiro a mim e depois, com a mesma água dava banho ao meu irmão. Para não termos frio enrolava-nos num trapo e punha-nos à lareira, portanto ficávamos com um cheirinho agradável a chouriço fumado. Acabadinhos de dar banho, além ao fuminho da lareira.
Tínhamos um género de balde com chuveiro e depois mais tarde, findo esse período de dar banho no alguidar de zinco, comecei a dar banho no balde de chuveiro. Preservo esse balde, acho que esse balde representa muito daquilo que foi a minha infância das condições que nós tínhamos e então preservo o balde, para me lembrar todos os dias ou pelo menos quando o vejo que hoje em dia basta abrir uma torneira e nós temos água quente como queremos.
Tínhamos televisão, era a única televisão na rua, nas redondezas até, e o meu pai quando havia touradas, sobretudo touradas, colocava a televisão junto à janela, de forma a que todos os que quisessem ver a televisão pudessem usufruir da tourada ou de um programa qualquer especial.
Tínhamos frigorifico e uma coisa extraordinária tínhamos telefone. Era talvez o telefone, era o telefone publico da vila. Eu passava o tempo a ir dar recados às pessoas, que olha Francisca amanhã às duas horas está na minha casa porque a tua irmã vai-te telefonar da Alemanha. Não me iam, não me deixavam ir dar as notícias da morte, lá ia a minha mãe, mas também recebíamos notícias do hospital a dizer olhe está aqui uma senhora internada e faleceu esta noite, você conhece a família? Claro que conhecíamos, porque conhecíamos toda a gente e lá íamos nós dizer neste caso a minha mãe, que a pessoa tinha falecido. E porque é que nós tínhamos telefone? Nós tínhamos telefone porque o meu o pai trabalhava nos CTT, portanto todos os trabalhadores dos CTT tinham direito a ter um telefone e a usar o telefone como entendessem. Durante muitos anos nós não pagávamos nem mensalidade, nem telefone ao fim e ao cabo.
Nós tínhamos também brinquedos diferentes, porque tínhamos bicicletas, embora para eu sempre recebesse a bicicleta em segunda mão do meu irmão, tínhamos patins, também foi assim, também recebi os patins em segunda mão do meu irmão, porque ele teve uns novos patins e eu tive patins. Eu tinha muita boneca, porque no Natal os CTT davam sempre prendas, os CTT ou os a associação dos CTT, eu acho que era mais um tipo de sindicato a que o meu pai pertenceria e que nós recebíamos sempre prendas boas no natal.
Antes do 25 de Abril, com sete anos, não tenho grandes recordações, muito mais recordações, mas sim lembro-me de os meus amigos terem uma vida diferente da minha, pelo menos em termos de comodidade de casa e de vida. Lembro-me da casa da minha avó, das minhas avós e do meu avô, que conheci. Ele era doente, portanto não trabalhava e na prática ficava connosco quando a minha mãe precisava. A minha avó cozinhava sobretudo à lareira, tinha um fogão, mas não sei se ela chegou a usar o fogão, não tenho recordações dela própria utilizar o fogão. Lembro-me de que quando a minha mãe ia lá a casa usava, a minha tia também, mas acho que sobretudo cozinhava na lareira no lume de chão. A minha outra avó, a mãe do meu pai, era uma pessoa muito austera, controlava o comer que nós comíamos, embora fosse o meu pai que pagasse e a minha mãe respondesse de lá de cima da varanda que eu podia comer aquilo que eu quisesse que era ela que comprava e não era a minha avó. Portanto havia além travão. Nunca comi na casa da minha avó paterna, nunca. Até porque eu gostava muito de frango e toda a gente da família, que tínhamos muitos familiares diziam olha Zezinha hoje tenho carne curucucu, queres vir cá almoçar? E eu ia almoçar à casa da pessoa que tinha carne curucucu. À exceção de uma tia da minha mãe, logo uma segunda tia minha que cozinhava mal e eu nessa altura já tinha algum sentido pouco obediente e então eu respondia automaticamente não, não vou à tua casa que tu não sabes fazer curucucu. Pronto, a senhora ficava muito ofendida. Em contrapartida, eu comia todo o requeijão e todo o queijo que ela fizesse, porque ela fazia realmente uns, um requeijão e um queijo muito bom.

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MJS:
O meu irmão tinha a única bola de futebol, da rua e praticamente da vila, pelo menos era a bola pública. Então a minha mãe só deixava o meu irmão ir brincar para a rua quando tinha os trabalhos de casa feitos e nós tínhamos uma sala que basicamente era uma camila, uma mesa redonda com uma saia no meio da casa com umas cadeiras e era aí que ele fazia os trabalhos de casa. Surpresa das surpresas, dois minutos depois do meu irmão ir fazer os trabalhos de casa já estavam feitos, mãe já fiz. A minha mãe ia ver os trabalhos e ele tinha os trabalhos todos certos, a minha mãe começou a desconfiar, ele passava o caderno pela janela, o Espalha, que é dez ou não sei, mas muito mais velho que o meu irmão fazia-lhe os trabalhos para ele poder sair de casa rápido, para eles poderem ir brincar.

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MJS:
Ao contrário de relatos que tenho ouvido de pessoas que têm, que da minha idade ou mesmo do meu marido que é três, dois anos mais velho que eu. Eu não me lembro do dia exato do 25 de abril. Eu não sei se fui à escola ou se voltei, eu não sei se continuei na escola, o dia exato não me lembro. Sei que nos dias seguintes, sim, o meu pai disse para nós termos cuidado, para prestarmos atenção às pessoas que víamos, porque podia haver um revés da coisa, nós tínhamos ganhado a liberdade, mas poderia ainda não ser efetivamente concluído e para nos termos atenção.
Depois, os factos do 25 de Abril lembro-me de serem tomadas as terras, a propriedade das terras aos latifundiários, aos agricultores da zona. Lembro-me das pessoas irem trabalhar para essas terras, de haver uma cooperativa que distribuía esse trabalho, e as pessoas iam trabalhar. Lembro-me de mais trabalho, pessoas que não trabalhavam, até essa altura, inclusive a minha mãe, começaram a trabalhar, porque por exemplo de fazerem uma reflorestação, não me lembro os anos, reflorestação de eucalipto nas terras. A minha mãe andou a plantar eucaliptos muito tempo, nessa altura eu ficava com minha avó e o meu avô que ainda eram vivos. Ia à escola, voltava e ia almoçar à casa deles e depois retornava à escola. O meu avô fazia o melhor calducho com ou sem cilarcas que alguma vez eu vou comer, nem eu consigo fazer um calducho como tenho recordações do calducho do meu avô.
Lembro-me o meu pai, muito importante, teve direito a subsídio de férias e então nós em vez de fazermos campismo selvagem, não era bem pelo campismo, mas em vez de irmos acampar uns dias à praia da lagoa de Santo André, com um pano a prender no carro e dormíamos debaixo daquele pano e a minha mãe, fazer vida na rua comum fogão e pronto. Desenrascávamo-nos assim e tivemos direito a uma tenda grande com dois quartos. O meu irmão teve direito a uma tenda pequenina canadiana e nós até tínhamos cadeiras que era extraordinário uma mesa com cadeiras sentávamo-nos à mesa a comer, já não comíamos com o prato na mão. Com o primeiro ano que o meu pai recebeu o subsídio de férias comprou essa grande solução e grande inovação para nós usufruirmos.
O pós 25 de Abril a parte da liberdade sou sincera, só tenho recordações pelo que me foi transmitido em termos pelo meu pai e pela minha mãe, de como não podiam falar, em como era conspiração falarem duas pessoas à noite, que não tinham liberdade. Passavam muitas dificuldades em termos de vida, que não se podia falar, Zezinha isto não se diz e a Zezinha guardava segredo, que o pai ou a mãe tinham-lhe dito aquilo, tinham feito aquilo, portanto não se podia.
Lembro-me do meu pai participar ativamente na eleição do Ramalho Eanes, do presidente, para presidente da república do professor, general Ramalho Eanes. Inclusive, o meu pai andou na campanha e pertenceu ao partido socialista lá à secção de Portel e não sei se não terei andado na caravana do professor Ramalho Eanes, não tenho recordações, mas seguramente andei na do Mário Soares. Sem ter idade para votar, mas o meu pai ia e eu ia também. Ia porque aquilo era muito giro. Mais recordações do pós 25 de Abril, pois, em termos de vida nós se já tínhamos uma vida boa, comparada com a dos meus amigos, melhoramos significativamente.
O meu pai deixou de estar afeto a Portel e a andar a reparar as vias e a instalar os telefones e começou a trabalhar na Telecom ou no distrito de Évora onde era necessário. Então o meu pai às vezes estava a semana toda sem regressar a Portel, mas tinha direito a levar um carro da empresa para Portel e tinha direito a trazê-lo na segunda feira para casa.
Que mais diferenças eu notei eu após o 25 de Abril, o desenvolvimento, sobretudo, de Portel. Nós erámos uma vila com as ruas de terra batida, não havia saneamento básico, como hoje, como hoje ou como nos anos seguintes foi feito, a água também foi uma coisa que começou a haver mais utilização ou a possibilidade de as pessoas terem água canalizada em casa. Lembro-me de inclusive havia aldeias que não tinham mesmo saneamento nenhum, também foi feito depois e lembro-me sobretudo da alegria das pessoas, das festas. Havia bailes por tudo e por nada, havia uma festa por tudo e por nada e como é obvio Maria galdéria assistia a tudo, ia a tudo o que fosse festa em Portel, não interessava quem fazia a festa, não interessava para que era a festa, Maria José ia.

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MJS:
Ia sozinha, pois, porque Portel era uma localidade segura e eu ia lá com a vizinha ou com a prima ou com, pronto. Lá ia eu à festa e às patuscadas todas, pronto. São basicamente, a diferença dessa, da melhoria de vida das condições de vida das pessoas que me rodeavam e também a alegria que havia das pessoas poderem andar e fazerem aquilo que elas quisessem. Poder falar, poder gritar ao mundo a sua revolta e a sua necessidade de melhor as condições de vida.
Lembro-me de uma coisa muito importante, nós tínhamos um médico que era o doutor Pita e o doutor Pita, verdade que seja dita, consultava-nos a qualquer hora do dia ou da noite, embora ele pudesse estar embriagado. Mas parece que com os medicamentos não matou ninguém e então, nós íamos bater à porta do doutor Pita e ele atendia-nos, a dona Glória ia chamá-lo e ele vinha para o consultório, tinha o consultório à porta e lembro-me do novo boom de médicos a chegarem a Portel. Uma diferença muito significativa, porque tínhamos médicos em Portel, tínhamos médicos em Monte do Trigo, tínhamos médicos na Amieira, mas sobretudo tínhamos em Portel e em Monte do Trigo. Porque eu tive uma otite e ele receitou-me uma medicação que não estava a funcionar e eu fui a Monte Trigo a um médico, interessantíssimo, ao entrar no consultório ele disse-me então Zezinha, como é que te sentes? Como é que ele sabia o meu nome, claro que eu não sabia que a minha mãe tinha preenchido a ficha e que lhe tinha dado o nome a primeira vez que me via e conhecia-me. Foi muito interessante essa experiência e melhorei, realmente, melhorei da otite. Tivemos, começamos a ter acesso aos médicos mais médicos e a mais saúde. Lembro-me de irmos fazer em base no Monte do Peral enquanto não se estabeleceram em Portel, porque o Monte do Peral tinha sido tomado ao Américo Amorim e pertencia à cooperativa de Monte Trigo, então cederam-lhe o monte para eles poderem-se estar ao fim e ao cabo.

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MJS:
Em termos de câmara, vergonha das vergonhas, mas eu não sei qual foi o primeiro presidente a seguir ao 25 de Abril, não tenho recordações. Mas tenho recordações de malta nova que nós tivemos a primeira presidente da câmara municipal de Portel da minha recordação que fez uma revolução enorme. Tão, tão, tão revolucionária que acabou por deixar o segundo mandato, porque já não suportava aqueles homens a apontar-lhe o dedo.
Mas tivemos o direito a piscinas, tivemos direito a muita obra, muita coisa feita na vila em termos de recuperação, em termos de acesso a todos. Os do concelho também tiveram muita obra feita não foi só na vila, foi também no concelho. Lembro-me da coragem dessa senhora a fazer, a construir essas piscinas, porque a opção orçamental era deixar duas das aldeias, ainda sem saneamento básico ainda para construir a piscina e a decisão foi também muito acertada, um mandato, menos um mandato e foi não fazer o saneamento básico nas duas aldeias, porque não havia dinheiro suficiente, mas fazia as piscinas que todas as crianças e todos os adolescentes do concelho poderiam usufruir e efetivamente foi uma obra grande e de renome, para Portel. Claro que depois o saneamento foi feito.
Lembro-me sobretudo da melhoria da vida que nós, em termos de usufruir da saúde, já não tínhamos só o doutor Pita, embora nós continuássemos a ter o doutor Pita, ele depois integrou o centro de saúde, mas tínhamos médicos, tínhamos mais médicos e mais novos que o doutor Pita, com outra perspetiva da vida. Acho que é sobretudo isso.

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MJS:
Sim senhor, então. Em termos de sociais lembro-me de andar na escola primária, nas antigas duas escolas primárias, eu era da escola primária dos rapazes, naquela altura já não havia a separação dos rapazes e das raparigas, mas a escola foi sempre conhecida como a escola dos rapazes e a escola das raparigas. A dada altura, o meu irmão fez a quarta classe e era para continuar a estudar e ele ainda foi para a Vidigueira estudar, só que, entretanto, construíram a escola preparatória de Portel e ele não tenho bem a certeza se a meio do ano ou se mudando de ano veio para Portel estudar. Outra grande inovação, não só pela escola em cima, mas pelo a introdução de novas pessoas em Portel, com outros conhecimentos, com outros estilo de vida, com outras abordagens para as coisas, tivemos muita sorte nessa altura, porque os professores também não havia a facilidade que há hoje me termos de deslocação, mas igualmente os médicos, também ficaram em Portel e não se coibiram de interagir na vida, não era só na escola, era também na vida das pessoas e ser parte integrante das pessoas. E aqui tenho também de prestar homenagem a um grande professor, professor Jorge Garcia que desde sempre viveu em Portel e que ele fez muita diferença, muita diferença na vida daqueles em quem tocou, pela sua maneira de ser, pela forma de vida simples e desregrada que sempre levava, pelo gosto pelo campo, pela caça, pelo gosto de viver e o saber viver, viver à maneira dele, sempre sem regras e sem imposições que isso era uma coisa que era de bradar aos céus. Era completamente impensável, um professor vir para Portel, ir morar para uma horta e ainda fazer patuscadas com os alunos à noite, cantando e tocando viola. Era completamente impensável nessa altura, mas ele fazia. Portanto em termos, de escola, tivemos essa grande mudança, eu como é obvio quando acabei a quarta classe mudei-me para a escola preparatória pré-fabricada, não sei se nessa altura já íamos até ao nono ano ou não, mas eu sei que fiz o nono ano nessa escola. Foi exatamente o último ano que a escola foi utilizada, porque, entretanto, a nova estava construída e quando eu venho para Évora, a escola de Portel nova inicia-se. Colegas meus que não tinham passado por qualquer motivo acabaram por estrear a escola, eu quase que estive a chumbar para ir para a nova escola.
Depois em termos de introdução de novas pessoas, de novas vivências não posso deixar de falar de também na situação do cultural com um animador cultural que a câmara contratou, de seu nome Manuel Brandão, que introduziu muita dinâmica e muita cultura em Portel. A cultura em Portel não havia, não existia. Uma exposição de pintura, o que é isso, um teatro, credo, às vezes só na televisão, e assim, ou de uma companhia que rebuscava além e ia a Portel. Mas nós, a sala de espetáculos que tínhamos era a artística era muito incipiente, embora servisse para os propósitos até à data e durante muitos anos também serviu. Havia cinema, havia cinema por parte do professor Norberto Patinho e aí tínhamos o privilégio de todos os domingos à noite poder ir assistir a um cinema, que era ele que escolhia e provavelmente era aquele que já tinha muitos anos. Aquela história do ir à estreia de um filme, o que é isso, os filmes estreiam-se? Nós não sabíamos. Eram sobretudo e lembro-me perfeitamente, eram filmes indianos, daqueles das senhoras com a cara tapada, ó que interessante que aquilo era. Aprendíamos muito, sobre a Índia.
Mais o Manuel Brandão criou-nos uma dinâmica sem fazer exceção de absolutamente ninguém, criou-nos uma dinâmica de cultura e de abertura da manete, abertura das ideias, de nós pensarmos por nós próprios e pela nossa própria cabeça. Do questionar, do pôr em causa, do não seguir os grandes chavões só porque é implementado que é assim. Manuel Brandão fez de todo, de tudo sobretudo uma grande diferença para aquilo que hoje sou. Contribuiu muito na minha formação pessoal em como pessoa, em como ser humano, porque eu não teria não seria aquilo que sou hoje se não tivesse tido o Manuel Brandão como mentor.
Fiz parte do teatro, fiz parte da ginástica, fiz parte da dança aeróbica, fiz parte do basquete, fiz parte das excursões todas que havia, porque basta, bastava nós pensarmos vamos fazer uma excursão e a excursão estava realizada. Nós íamos falar com o Manuel Brandão e o Manuel Brandão fazia o milagre, arranjava-nos o autocarro, arranjava-nos as coisas todas com a condição de nós nos portarmo-nos bem e não haver problemas. Desde que vocês continuem assim, vocês vão tendo as coisas que nos vão solicitando, é claro que nós nos organizávamos de maneira a não acontecer nada, que toda a gente portar bem. Pronto, às vezes acontecia um álcool a mais, havia assim, mas era tudo controlável, porque nós tomávamos conta uns dos outros e não deixávamos que as coisas descambassem para a desgraça.
Fiz parte dos grupos arqueológicos que foram criados também em Portel, os meus verões eram passados em escavações, com o Paulo Lima e com outras pessoas que iam variando ao longo do tempo. Eu estabeleci também grande relação com o Paulo Lima em termos da arqueologia que era também uma coisa que também não se fala, não se sabia e nós começámos a fazer arqueologia.
Lembro-me sobretudo em termos de desenvolvimento, a vila tornar-se mais branca. Acho não, tenho a certeza que houve até um slogan “Portel Vila Branca”. Ao ponto de não sei se a junta de freguesia se a câmara, dar, caiar as ruas das pessoas que não tinham possibilidade para o fazer. Podia estar aqui 100 anos dizendo diferenças do pós 25 de Abril, que é ao fim e ao cabo, toda a minha vivência.
Mas quero falar agora sobre o papel da mulher do pós 25 de Abril. E para falar do pós tenho de falar do anterior. Quero esclarecer que lá em casa, na minha casa quem mandava era o meu pai, mas quem mandava no meu pai era a minha mãe. Portanto, eu tive uma vivência logo completamente diferente de todos os meus colegas e de toda a minha vizinhança. A mulher era reduzida a empregada da limpeza, tinha obrigação de tratar dos filhos, de acompanhar os filhos, tinha a obrigação de ter a casa limpa, asseada. O asseio era uma coisa extraordinária, havia definições de asseio muito, muito giras. Manter a casa limpa, ter a mesa posta quando o marido chegasse a casa e o comer pronto, óbvio. Se a mesa não estava posta já era um grande desaforo, não ter comer então pronto dava direito a uma sova, ali um muro, os muros nas ventras para ela aprender, pronto. O papel da mulher mudou muito, a mulher não tinha direitos, a mulher só tinha deveres. Quando morria alguém da família, o pai, a mãe, os homens faziam luto, também era prolongado, mas as mulheres eram quase sacrificadas, quase anuladas com os símbolos do luto, do xaile na cabeça, do lenço na cabeça, das meias pretas, embora estivesse 42 graus, mas elas não podiam sair de casa sem as meias pretas.

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MJS:
Mulher de limpeza. Após o 25 de Abril começou-se, comecei a reparar e comecei a notar que a mulher se tornou muito mais ativa. Eu fui talvez da primeira geração que teve determinadas liberdades que para hoje, para um jovem, é um dado adquirido, mas para nós, com a nossa idade e sendo mulher tivemos que a ganhar. O facto de poder sair de casa, quando quisesse e lhe apetecesse e tivesse vontade. O facto de poder frequentar cafés, porque uma mulher decente não ia a um café até porque eu só comecei a estudar na universidade, anos mais tarde, do que findo o décimo segundo, porque o meu pai entendeu que se eu quisesse estudar tinha que ser enfermeira e tinha que estudar aqui em Évora, porque todas as que foram para Lisboa foram putas. E eu entendi que se ele queria tanto um enfermeiro na família dele que ele se inscrevesse e fosse tirar o curso.
Portanto comecei a trabalhar, já fora de tempo vou-me matricular na escola para concluir mesmo a escolaridade e depois tive a sorte de abrir o curso pós-laboral da moderna em Beja e ir para a universidade. Mas eu lutei com aquele estigma da mulher não faz isto, a mulher não, não, não tem isto, não tem, aquilo. Posso dar por exemplo, a situação do carro, a minha mãe não tinha carta de condução, nem pensar em tal uma mulher tirar a carta de condução. Eu não me lembro de ninguém, de nenhuma mulher com carta de condução até se calhar aos meus quinze, dezasseis anos, eu não me lembro de mulher nenhuma a conduzir. Havia os homens sim senhor, mas as mulheres, nem pensar em tal que isso era um escândalo. Mais, em termos do papel da mulher, posso dar o exemplo de as raparigas para saírem de casa terem de ser sempre acompanhadas, nem que fosse pelo irmão mais velho que era o meu caso, mas depois ele chegava à festa e dizia-me assim olha, quando a festa acabar a gente juntasse aqui, não falhes, olha que eu vou para casa e tu ficas aí e depois a mãe já não te deixa vir. E eu passava o tempo todo lagarteando para onde eu queria, fazer o que eu queria, aquela hora que a festa acabava, tava lá no sítio e íamos os dois para casa como se estivéssemos os dois sempre juntos. Pronto, porque se a minha mãe sonhasse que eu tive na festa e que o meu irmão não tivesse de olho em mim, eu não ia à próxima festa.
As mulheres não fumam. As mulheres não fumam, que vergonha as mulheres fumarem, isso são coisas de homem. Fumei, fumei e continuo a fumar, pronto.
As mulheres começaram a fazer parte integrante de associações. Eu lembro-me do desenvolvimento do grupo desportivo de Portel, o meu pai fazia parte da direção do grupo desportivo e lá ia a Maria José ao domingo ao futebol. Depois do futebol íamos para a encruzilhada tira um petisco. Coisas de homem, alguma vez as mulheres vão tirar petisco. Nem pensar em tal, nós íamos. Tirávamos o petisco estávamos lá a conviver, estávamos lá a conviver, maior parte das vezes com montes de homens, pronto. Mulheres poucas, éramos nós e eventualmente mais uma ou duas e depois íamos para casa e, se quiséssemos ir ao Sonoro do senhor Patinho, ainda podíamos sair outra vez domingo à noite para ir ao Sonoro.
Tínhamos o jardim, tínhamos o jardim que podíamos ir até ao jardim, o jardim parque doutor França, que podíamos ir até ao jardim passear também. As mulheres começaram a viver a vida de outra forma com as mesmas liberdades, embora de uma forma, quase de luta, que os homens tinham. O meu irmão nunca dizia que saía, o meu irmão saía e pronto. Ele além até aos doze, treze anos, sim senhora, tinha de dizer onde ia. A partir dessa idade, ele saía quando queria, desde que comparecesse às refeições a situação estava resolvida, ele não precisava. Era rapaz, agora tu eu tenho de saber onde tu andas. Já vistes depois as vizinhas saberem que tu regressas à uma da manhã, onde estivestes tu até à uma da manhã, que vergonha é esta. Lutamos, conseguimos, os mais jovens têm esse privilégio de poder viver essa vida sem restrições completamente nenhumas. Começou a haver mulheres, há pouco falei do luto, depois não conclui o raciocínio, após 25 de Abril o xaile pela cabeça caiu, o lenço na cabeça caiu, as meias pretas caíram e hoje em dia, já temos muitas mulheres, que não fazem luto, pelo menos não fazem luto, apresentando em termos de roupa, fazem o luto como é obvio. As de hoje em dia fazem luto à sua maneira e da forma que querem. As mulheres que foram obrigadas a fazerem luto de xaile na cabeça e de lenço na cabeça hoje ganharam uma nova vida, são livres. Tornaram-se ativas na sociedade e em Portel frequentam a Universidade Sénior, fazem teatros, participam em filmagens que a Rosa desenvolve e ocupam-se. E fazem hidroginástica, uma mulher em fato de banho, credo alguma vez, nem pensar em tal, nem tinham fatos de banho e iam à praia e se quisessem iam de bata e a bata era suficiente para estarem além nas ondas para estarem a chapinhar. As pessoas com 80 e não sei quantos anos em fatos na hidroginástica, a novidade não está na hidroginástica, está sobretudo na mulher ser permitido vestir fato de banho.
Em termos de mais regalias que a mulher foi conquistando, é muito simples, é nós pensarmos que passaram de procriadoras e de mulheres da limpeza para seres humanos, respeitados e com direito a poder expressar e poder viver a vida delas como querem. Claro que ainda há restrições, claro que ainda leva nas trombas, vai sempre existir, mas cada vez mais isso não acontecesse. Cada vez mais a mulher atingiu a sua liberdade, vive a vida e trabalha. Trabalha fora, trabalha, ganhando também e contribuindo também para a economia familiar.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Entrevista a Maria Leonarda Madeira

Composto pela gravação audiovisual da entrevista e a respetiva transcrição.

Transcrição Maria Leonarda Madeira
Entrevistada: Maria Leonarda Madeira (MLM)
Entrevistadora: Manuela Oliveira (MO)
Localidade: Portel
Data: 17 de outubro de 2023
Transcrição: Diana Henriques (15/11/2023)

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MLM:
É assim, eu chamo-me Maria Leonarda Madeira, nasci em Portel, na rua do Outeiro, até tenho um poema alusivo a isso. Os meus pais, o meu irmão, a minha mãe andava sempre com o meu pai. O meu pai era pastor, foi toda a vida pastor, foi o que o pai dele o ensinou e dele depois também ensinou ao filho dele, o meu irmão começou a andar com o meu pai, tinha para aí uns seis anos. Ele nem foi à escola foi. Então, o que é que acontecia, vivíamos naquelas, nós aqui chamamos-lhes malhadas, aqueles montes mais antigos, as aquelas casas mais antigas, que os patrões nos davam por favor, para não se pagar renda. Ou então fazíamos umas chochas, umas chochas que era umas pastas que não chovia lá dentro, mas pastas com mato. O meu pai lá sabia fazer aquilo com o que lhe tinham ensinado, aquilo havia umas tarimbas e ali estávamos todos. Era o meu pai, a minha mãe e a gente os três e eramos cinco ao todo.
Meu pai houve uma altura em que as coisas, nessa altura, estavam muito mal, muito mal, muito mal, a vida nessa altura, estava péssima. Então o meu pai tinha lá uma cabrinha ou duas, o que ele fazia para dar à gente de manhã, ordenhava a cabra e dávamos uma quartilha, uma medida de litro e era o nosso pequeno almoço, o nosso almoço e o nosso jantar. Que era leite, não havia mais nada. Ou então ia-se apanhar uns poejos lá ao barranco e fazia-se uma açorda, não havia mais nada.
Então a minha mãe arranjou trabalho por conta do mesmo patrão, e o meu pai andava com a gente as duas que éramos mais pequeninas, num alforge, uma de um lado do alforge e a outra do outro. E chegava ali a um riacho, lavava a cara à gente, tinha um pente pequenino na algibeira, penteava a gente e quando tínhamos fome ordenhava a cabra. Era o que havia e não havia. Era uma miséria, uma miséria muito grande.
O que é que aconteceu, chegamos à idade escolar, idade escolar. O meu mano, porque não podíamos ir os três para a escola, porque ele fazia muita falta ao meu pai, porque o ajudava no gado, chegou a ficar noite inteiras só a vir comer, porque o meu pai às vezes nas paródias não aparecia e ele coitadinho, para não ter medo, fazia fogo, fazia um lume. Que dizendo que fazendo lume os bichos já não se aproximavam.
E então nós íamos para a escola, para a da minha avó. Uma viúva, uma pobrezinha que andava à esmola, que ia buscar a comida a uma casa, que lhe chamávamos a casa da sopa, para aquelas pessoas que eram viúvas, não era para toda a gente, mas que era viúvo. Tinha um cestinho, com uma panelinha lá dentro, uma tampinha de cortiça e ia todas as tardes aquela casa da sopa buscar feijões, uns feijões com arroz ou feijões com massa, era o que lhe davam. Um quarto de pão e ia todos os dias buscar. Quando chegávamos a casa da minha avó, fui muita vez buscar, já depois de maiorzinha. Vai lá buscar a sopa da avó filha e eu ia. O que é que a minha avó fazia, como éramos mais, que ela também tinha netos de outros filhos, que também não tinham há mesma, que aquilo era igual. A gente tapava-se com sacas, as nossas camas, os nossos colchões eram palha de milho, tapávamo-nos com sacas. Andávamos a trabalhar até com sacas, a minha mãe andava a trabalhar com uma saca à cintura e uma saca às costas. Uma saca é aquelas sarapilheiras, aquelas sacas de sarapilheira, onde a gente mete hoje o carvão, mete assim os cereais ou as coisas. E então era assim, eu ia buscá-la e a minha mãe quando chegava a casa, uma casinha pobre, humilde, que nem um chão direito tinha, de terra, de terra. O chão era terra, nem era direito, tinha uma rocha daqui uma rocha dali, porque era só o que havia.
E a minha avó ainda lhe metia um cocho, nós chamamos um cocho aqueles cochos de cortiça, um cocho de água lá para dentro dos feijões, porque a ver se eles davam para mais algum. Quer era para dar pelo menos uma tigelinha para cada um ou um pratinho a cada um, daquela sopa. E ela ia à esmola com um rancho de viúvas e de pessoas que não tinham nada aí pelas casas ricas, nós tínhamos cá muitas casas ricas em Portel. Tínhamos muito latifundiário nessa altura. E então elas andavam coitadinhas, um dava-lhe um tostão, outros davam dois tostões, outros davam uma bolacha, outros davam uma pinga de azeite, era assim. E ela levava para casa tudo quanto lhe dessem, ela levava para casa, um bocadinho de pão, que a gente estávamos lá. E eu dizia, avó não vás à esmola e ela dizia filha como é que a avó não vá, então o que vocês comem, então o teu pai não pode dar nada, os teus tios estão na mesma, o que é que a gente come? Tenho que ir, pelo menos a gente ganha para o petróleo para acedermos o candeeiro e para fazermos alguma coisa para a gente comer, com a pinga do azeite.
E então assim fomos, eu andei à escola, a minha mana também andou e cheguei à quarta classe.

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MLM:
Então a minha juventude foi assim. Acabamos a escola, o que é que havia para a gente naquela altura? Era trabalho. Não havia mais nada. Acabamos a escola e fomos logo, tinha dez anos e já ia apanhar grão, dos tremoços, aqueles trabalhos assim sem serem trabalhos de muito peso.
Depois, com onze anos já ceifava, quando foram as oito horas, quando foi aquela revolução das oito horas que as pessoas não trabalhavam de sol a sol, trabalhávamos de sol a sol. Eu apendi ainda a trabalhar de sol a sol, era nascer o sol começávamos a ir para o trabalho, punha-se o sol e o manajeiro, o manajeiro era o encarregado que andava no trabalho, vamos embora, mas era preciso o sol estar bem escondidinho. Depois houve uma luta das oito horas, já era mais crescidinha, já eu tinha não sei era catorze ou quinte anos, já não me lembro bem, mas sei que nesse ano da luta das oito horas estávamos ali numa, numa herdade de um senhor aqui na freguesia da Atalaia, quando as oito horas, quando houve aquela revolução das oito horas. E então foi assim, os senhores, os ranchos que iam para a ceifa de Portel fazia as oito horas e os trabalhadores que estavam debaixo dos telhados, que moravam nas casas dos patrões, faziam as doze, porque estavam lá morando com ele.
Eu fui começar a trabalhar mais o meu irmão, no dia em que essa lei foi nova, fui começar à ceifa mais o meu irmão, eu levava uma rendinha para ir fazendo ali enquanto tínhamos algum bocadinho de descanso e eles chegaram e vamos começar a trabalhar, vamos começar a trabalhar. Fomos trabalhar. O meu pai andava ali com as ovelhas, nessa altura o meu irmão já perito, aprendeu os trabalhos todos do campo. O meu pai disse vais aprender os trabalhos todos do campo, se não quiseres ser pastor não és, se quiseres ser pastor és, mas enfim ele pronto. Fez sempre, sabe tudo mas foi pastor. E então começamos a trabalhar, o meu pai deu ali a volta com o gado, parece que estou a ver ali a herdade em que andávamos a trabalhar e ele disse assim, então quem é que te mandou ir trabalhar? Foi o manajeiro. Não, não, vocês só vão trabalhar quando vier o pessoal de Portel, quando vier os de Portel é que vocês vão trabalhar. Era o que mais me faltava agora era vocês irem trabalhar quatro horas mais que os de Portel, não nem pensar. Vão para a sombra do chaparro. Pois fomos para a sombra do chaparro e pus-me a rimar a rendinha e como é o picado e como não sei o quê. Quando a malta, chegou o pessoal de Portel e o rancho de Portel começaram a tratar das semedidas e começar a fazer o lume e não sei, não sei quê e começaram a trabalhar. Vá agora vão lá com esses. Fomos. O patrão à noite despediu o meu pai. Mandou-o chamar, lá onde ele vivia, vivia no monte. Diz lá ao Pedro Madeira que venha cá. O meu pai foi. Então que é que querem? Tas despedido. Então olhe, não é tarde nem é cedo, telefone já, telefone lá, que você tem telefone aí aos Farins para me virem buscar a tralha que eu vou-me imediatamente embora. Para onde é que agente vinha? Para a casa da minha avó. Os meus pais não tinham casa e ela tinha aquela casinha, muito humilde, que o estado tinha arranjado da do Alfredo, era do Alfredo e da Maria Joana, tinha aqueles altos lá ao pé do castelo.
Então para a do meu pai e para a da minha avó, viemos outra vez todos. Para a da minha avó outra vez. Ela coitada arranjou lá espaço e para ali ficamos. Tive de me ir defender à minha mãe, não quer ir trabalhar com as mulheres da vila? Eu não as conheço bem. Ó Maria, não sejas parva, a gente tem de trabalhar com toda a gente. Bom comecei aqui a trabalhar em Portel, pois, logo em pequenina também, às vezes até irmos de noite, aos trabalhos que começavam mais cedo e depois vínhamos mais tarde. Quer dizer fugíamos ao calor, ao sol. Comecei a ir trabalhar aí com a malta da vila, comecei, começamos a ir na vida da gente, vida da desgraça. Molhadelas, vínhamos molhadas quilómetros e quilómetros a pé e vínhamos molhados cheios, cheios sem termos um plástico. O plástico já apareceu depois, que não havia plásticos, só havia aquelas ditas das sacas que eu digo e não havia botas de borracha, não havia um plástico, quando chegamos as minhas primeiras. Mas éramos tão parvas, tão parvas nessa altura, vínhamos cantando o caminho inteiro.
Uma vez vínhamos com uma molhadela tão grande, que fomos bater à porta de um patrão, que era o Manuel da Corte e começamos a cantar: Ó senhor Manuel da Corte, que é um grande ramalhete, tente lá dar mais um tostão da algibeira do colete. Já vínhamos com uma molhadela tão grande e ainda fomos cantar à porta do outro. Éramos mesmo alteras, mas éramos parvas mesmo. Não interessa.
Então começamos a trabalhar, íamos para onde havia. Entretanto o meu marido foi para guarda florestal, já estou a falar do casamento. Fiz assim, já tinha quinze ou dezasseis anos, eu tinha um grande corpo, eu era uma grande mulheraço, comecei a namorar. Ele já me ia buscar à porta da escola. E então, começamos a namorar e fizemos vida juntos. Fizemos vida juntos, nasceu a minha Maria Rosa que é a minha filha mais velha, ele estava na tropa em Beja. Depois foi para Évora, para a tropa de Évora, mas foi como outros fomos para Évora para o pé do meu pai, que o meu pai era pastor em Évora nessa altura. E então o que é que aconteceu, entretanto ele sai da tropa, tem trabalho, vamos, ele vai para guarda florestal, ali para um monte que é laranjeiras do doutor Zé Rico, doutor Zé Rico. Vai para guarda florestal, nasceu lá a Ana Paulina e os meus outros filhos mais velhinhos estavam em idade escolar, mas não havia ali escola, e não tínhamos transporte para os trazer para Portel. Então andamos a fazer petições, baixos assinados para o governo, para os presidentes, para os, para os cíveis também. Na altura havia em Évora, e então andamos pedindo que os rapazinhos por Évora, que havia doze ou treze rapazinhos que precisavam de escola, mas era uma escola na Atalaia, que era duas casinhas, pronto, não interessa, era a sala de aula, comum a casinha de banho e pouco mais, mas os rapazinhos começaram a ir para lá.
Foram para lá à escola e a professora dos meus filhos nessa altura, tinha, já estou a falar na revolução agora, vá. A professora dos meus filhos tinha o marido no ultramar e ao sábado era o dia em que eles faziam aquelas coisas de cante e de, ao sábado não trabalhavam normal, era livre, era um tema livre. E a professora dos meus filhos, já lhe andava dizendo que isto estava, ia haver uma revolução, por causa das tropas do ultramar, estavam a morrer muitas tropas, ia haver uma revolução e ensinou-lhe a Grândola ao sábado. Mas eu não sabia de nada, não sabia de nada, ela ensinou-lhe a Grândola. Entretanto, os rapazes vinham e quando chegavam ao monte calavam-se, isto não é para se dizer a ninguém, isto é só para aqui, não se canta em lugar nenhum, não se diz a ninguém. As crianças não diziam, com certeza.
Bom, naquele dia da revolução, os rapazinhos vão para a escola e voltam para trás daí a bocadinho. Digo então não houve escola? Mãe houve uma revolução, a cantiga da nossa professora já se pode cantar. Pus o rádio e tínhamos um rádio e uma televisãozinha de bateria, tínhamos uma televisãozinha pequenina de bateria e tínhamos um rádio, fui ligar o rádio e estava cantando a Grândola. Olha, olha é a nossa cantiga, vocês cantaram. Então e ela ensinou? Ensinou a nossa professora, que a nossa professora dizia que havia uma revolução. Eu ponho-me a observar aquilo bem, a ouvir aquilo muito bem, mantenham-se nas suas casas. Calma, para não haver distúrbios e não haver nada e vai da Grândola. Isto é uma revolução e vai. Isto é com do governo, com certeza. Bom lá comecei a perceber melhor aquilo e digo, pronto é uma revolução, os rapazinhos já não foram à escola.
Entretanto, já lá estávamos havia para aí já uns quê, a Ana Paula não chegou a ir pra lá à escola, passado aí uns tempos, a herdade foi apanhada pela reforma, pela cooperativa da Reforma Agrária de Monte Trigo, na rainha do Alentejo. Apanharam a herdade e nós viemos embora, viemos embora e viemos embora para Portel, os rapazes foram para a escola e eu fiquei. E houve uma reunião muito grande, nessa altura, porque as pessoas que andavam trabalhando nessas terras, não recebiam há muito tempo, os patrões já sabendo o que se ia dar, uns foram para aqui outros foram para ali e dinheirinho que é bom nada. Há pessoas que tiveram, olha ali o Marolinho disse um dia destes que teve onze ou doze meses sem receber. E depois, as pessoas não recebiam o que é que acontece, o que é que aquela reunião deu, fizeram uma reunião muito grande a malta de Portel, o povo foi todo aquela reunião e eles andaram com um microfone a avisar que ia haver uma reunião muito grande no sindicato, que a gente, era a casa do sindicato, para a gente se reunir para a gente sabermos o que é havíamos de fazer à vida, porque as pessoas não recebiam, que isto era uma crise muito grande que aí andava, que os patrões não apareciam, não pagavam. Fomos à dita reunião, foi-se, naquela reunião foi eleita uma reunião do sindicato, uma direção do sindicato, aonde fui eu eleita e a Teresa Navalhas, a Arminda, mãe do outro Capela que trabalha na câmara e uma senhora que está agora até no ar já, Maria Cecília. Fomos as quatro para, então porque é que não vão, mas então não podem os homens, porque têm outra coisa para fazer. Os homens têm mais coisas para fazer. Vão lá vocês. O que é que aconteceu, aquilo que é que se resolveu, é assim, não pagam nós vamos para as herdades. Vamos apanhar as terras, não podemos estar sem comer. Os nossos filhos têm de comer e tal qual os filhos deles, está-se aqui a criar uma grande crise e a gente vai avançar. E os homens dividiram-se, uns foram para uma herdade, outros foram para outra e começaram a trabalhar a terra, a trabalhar, a produzir, a semear e a fazer as coisas para a gente ter o que comer. Andavam a vender com um trator aí nas ruas, couves, repolhos, feijão, aquilo que produziam. E a gente ficamos ligadas ao capitão Porto, era um capitão em Évora, é que nos dizia, as do sindicato, era fazer a distribuição das mulheres, que os homens já estavam naquele sítio, também a descrição das mulheres trabalhadoras rurais. Eram as outras elas tinham a vida delas. E então, lá o que é que aconteceu e então, a gente é que distribuía as pessoas.
Ali na Quinta do Ramalho, por exemplo, a gente não quer cá mais mulheres, que o trabalho está quase pronto. Não quer, mas tem que querer a gente ainda tem aqui umas três ou quatro, manda-as para lá. E o capitão Porto telefonava de lá, então como é que estão para aí as coisas? Isto foi no tempo do 25 de abril em que se fazia tudo. Fazia-se tudo e mais alguma coisa. O que realmente, o poder foi dado ao povo. Tínhamos aí uma rapariga que era uma filha bastarda, era bastarda, o pai era um ricaço aqui de Portel, era o senhor Fonseca, um senhor ricaço, mas fez aquela menina à empregada dele, a emprega tinha para aí uns catorze ou quinze anos quando teve aquela menina, mas nunca a assumiu como pai. Apesar dele, dele nunca, se íamos com ela, ele comprava a ela e comprava a nós. Havia lá um funcionário na casa dele, uma pessoa jamais antiga, e ele mandava esse funcionário levar comida a casa da filha, mandava levar dinheiro.
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Apesar dele fazer isso tudo, o que é que ela faz, ela era filha dele, mas ele não quis assumir. O que é que a gente faz a uma altura, o que é que dá na cabeça em fazer. Convidamos aí o pessoal da vila, da terra, com o microfone numa carrinha do José Colaço, e andamos na rua, quem quiser vir entregar a casa à Antónia venha hoje à tarde, que a gente vai lá entregar, a casa é dela. Ele tinha já lá metido um primo, um primo dela, um primo ricaço dela, até diziam que ele estava lá armado, não sei se estava ou não, que a gente nunca vimos a espingarda. Então a malta foi toda ter aquele largo, ele cortou a luz lá em cima e os nossos homens, subimos as escadas com os isqueiros dos homens, com os isqueiros dos homens, que naquela altura era de pedra, fomos lá acima. Chegamos à janela da casa dela, isto é tudo nosso, isto é da Antónia, Antónia anda para cá que a casa é tua. Estava aí o capitão Porto, entrou, entrou, pela casa dela. Era a altura em que se fazia tudo.
Íamos às entregas das terras e fazíamos tudo. Chamávamos tudo, a toda a gente, não sei como a gente não levou porradas. Houve muita gente que levou ainda porradas. Naquela entrega da terra, que é aquela, que é a Folgoa, era a Folgoa, as cooperativas estavam ligadas e pediam ajuda umas às outras. Quando havia algum problema numa cooperativa, então a cooperativa de Ilhó telefonou, ou mandou carta, ou telefonou para a de Portel, foi o nosso pessoal lá e ia só homens, naquela altura foi só homens, a ver se ajudavam, porque eles iam tirar ou um rebanho de gado, de vacas ou ovelhas, não sei do que era. Então a malta foi, a sorte naquele dia, por pessoas que viram mesmo, tive um cunhado que fugiu, foi ter quase a Évora à Torre de Coelheiros fugindo deles, a sorte foi a camioneta da carreira, a gente chama-lhe agora é os autocarros aí, abriu as portas, duas portas da camioneta para os homens que vinham fugindo meteram-se dentro e o homem da camioneta avançou. Porque a guarda com cavalos batiam, mas batiam a sério. Não era bater de brincadeira, era bater a sério. Escrutadas e cartadas até mais não. Então nessa altura, aqui em Portel também houve, eu um dia tenho um retrato do Ti Nabo tenho dos filhos, também levou umas vardascadas, já foi aqui na, aqui na cooperativa. Também viemos do São João, também mandaram a gente vir embora dos trabalhos, que ia aqui haver uma manifestação, depois eles ainda bateram aí, até não sei se foram os de cá se foram alguns de cá, já não me lembro, alguns guardas de cá, sei que levamos. Eu não levei, mas o meu cu também estava assim, como o de nove. A entrega das herdades, faz e já tiram as coisas à gente, estes, aqueles, os outros, a vocês estão muito alteradas, diziam os guardas, vocês aí estão um bocado alteradas. Abalávamos aí a corta mato, íamos para, andávamos por aí, mulheres doidas.
E então, o que é que aconteceu, deu-se então o problema de irmos para eleições, depois, quando foi a nossa candidata, quando foi o doutor João, que era, quando foi aquela salvação, não foi a junta de salvação, foi a comissão administrativa para a câmara. E só depois é que houve eleições e quando veio eleições livres, é que foi quando a Manuela Oliveira se candidatou e, pronto, lá ganhamos as eleições.

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Andei em todas, para além de andar no sindicato, andei sempre à frente, andei sempre na faixa na frente, andei sempre à frente. Fui candidata à freguesia de Portel, à assembleia municipal, andei lá uns poucos de anos, fui candidata ainda à câmara na lista da câmara, então depois fui eleita vereadora, um ano porque um camarada meu faleceu, já não quis continuar, eu refiro-me até onde a gente pode chegar, não precisava então não fiquei. Então fizemos assim, então andei sempre, sempre à frente. E o poder local democrático foi uma conquista, é a maior conquista de abril. Foi a maior conquista de abril, porque o poder autárquico, o poder autárquico democrático deu, era, era uma foi uma raiz que estendeu os braços, por tudo o que era bom para a população. Desde a saúde, desde as escolas, as escolas públicas, os médicos do nosso lado, à frente também nestas lutas, nestas greves, nestas coisas, vendo a gente, os professores, os professores o mesmo também fizeram tudo por causa da escola pública, porque só tínhamos as escolas da altura daquele senhor e nessa altura ficamos, nem com as escolas rapazes e raparigas, muitos porque também não havia, era rapazes de um lado e raparigas do outro, isso fazia tudo parte do outro regime.
Nós tínhamos médicos nessa altura em Portel, de todas, de todas as qualificações, de cabeça, de barriga de tudo, moravam aí nas herdades que tinham sido, onde os trabalhadores estavam. Vieram como voluntários, como não pagavam casa, tinham ali aquilo. E vinha muita gente de fora, do Norte, estrangeiros ver as cooperativas, ver como a gente atuava, ajudar, fazer perguntas, isto era uma amizade. A gente às vezes até cantávamos camaradas lá do Norte vem ao Sul passear, na nossa cooperativa há sempre mais um lugar. E então era verdade, as pessoas vinham eram bem-recebidas, isto era tão lindo, tão lindo que a gente íamos tratores inteiros de mulheres e íamos trabalhar para as herdades, que é o que às vezes me mete mais aflição. Íamos cantando todo o caminho e vínhamos e havia trabalho para todos e recebíamos o dinheiro todo ao fim do mês, então e agora? Você, você passa aí hectares e hectares e hectares de terra, tem, um rebanho de gado aqui e é porque têm subsídio e ainda lá estavam. Os patrões ainda têm subsídio e vêm uma pessoa ou duas numa herdade e ninguém trabalha, o trabalho, a gente sabe que hoje há outras máquinas e outras coisas, mas é assim no tempo antes do 25 de abril, o meu marido ganhava um conto e novecentos por mês que são dezoito euros, tinha eu já cinco filhos, já éramos cinco pessoas, quatro rapazes, seis pessoas com a Ana Paulina. Ganhávamos um conto e novecentos, veja dezoito euros. Na reforma agrária, quando a reforma agrária começou a gente recebia cinco contos, ora já foi uma grande diferença, de um conto e novecentas para a gente receber cinco contos é dinheiro. E o que é que as pessoas começaram a fazer com aquele dinheirinho, a vida das pessoas melhorou um bocadinho, não melhorou só na base da saúde e não melhorou só na base da educação, não melhorou só na base das autarquias, melhorou também nas famílias, com trabalho, começaram a fazer, cada um fazia a sua casinha como podia. Estes terrenos foram-nos dados pela autarquia, este terreno aqui onde eu estou foi nos dado pela autarquia, não foi só este, foi a rua toda para cima, foi nos dado pela autarquia. Tínhamos o terreno, então o que é que começamos a fazer, ao fim do mês tirávamos ali um dinheirinho e comprávamos umas sacas de cimento, comprávamos umas tijoleiras, comprávamos umas vigas, metíamos um pedreiro um dia, depois metíamos o pedreiro depois para outro dia, depois tinha ajuda deste, tínhamos a ajuda daquele. Fizemos uma casinha. Não foi grandes casas, mas dá para a gente viver e pronto, compramos uns sofás e umas televisões e era o nosso, tínhamos direito, tínhamos direito a isso, tal como os nossos filhos, também tinham direito a outras coisas, tal e qual como os outros. Mas é assim, quem diz hoje precisamente e daí para cá depois também houve uma altura em que as coisas também não havia trabalho, fazíamos a tapetes de arraiolos, fazíamos enfim aquilo que apanhávamos.
Mas agora, agora nesta fase em que a gente está as pessoas dizem, as reformas são pequeninas sim senhora, podiam ser melhores, podiam ser melhores sim senhora, podíamos ter mais, mais direitos à saúde podíamos, mas que o serviço nacional de saúde nunca acabe e que as reformas, também nunca acabem, porque o meu marido teve um avô que trabalhou 50 anos aqui no matadouro, 50 anos, no outro regime e não teve um tosto de reforma. Quando daqui o mandaram embora, já não podia trabalhar, foi para uma casa de banho e recebia o que as pessoas lhe queriam dar nas casas de banho públicas. Portanto não podemos dizer assim, estamos mal, estamos, estamos mal sim senhora, mas estivemos muito pior. Hoje a pessoa que está reformada, mesmo que ganhe 400 ou 500 euros, pronto é as reformas mais se calhar, também há quem receba 350, portanto essas ainda são piores, a gente hoje já não compra sapatos todos os dias porque já não precisa comprar, não compra roupa todos os dias porque já não precisa comprar, já não come o que comia certas alturas, já não gasta dinheiro em certas coisas. Hoje os reformados ajudam os netinhos, podem ajudar os netinhos e a vida da gente vai andando, se não tivermos doenças, se não tivermos doenças vamos indo. Melhoramos porquê? Porque houve uma eleição para o poder autárquico democrático e porque houve eleições livres e democráticas e as coisas começaram a melhorar.

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MO:
Que transformações é que teve nas relações com os maridos, com os filhos, com as outras mulheres? A participação na sociedade como é que foi conte lá mais um bocadinho disso
MLM:
As mulheres que eram ao fim e ao cabo, antes disto eram um objeto, eram um objeto, eram um objeto da casa, eram um objeto da casa, uma cadeira ou uma mesa que ali estavam.
Depois disto, a evolução das mulheres foi uma coisa fora do normal, porque é assim, quem é que via uma mulher num café, está quieto ninguém ia a um café, os cafés eram dos homens caminhavam de manhã e só de lá vinham à noite. Às vezes ainda vinham para casa e ainda vinham implicar e dar porradas. Era a comida feita e era mais nada, comida e vinho e estavam, e as mulheres começaram a pensar isto, isto realmente tem de levar uma volta. Tem de dar uma volta. Eu tinha aí uma amiga minha que íamos para uma reunião do partido, o meu marido crescia-lhe logo aí o mouco, eu chamo-lhe o mouco, porque ele punha-se de maldisposto. Eu vou para a reunião do partido e eu dizia assim à Teresa, o meu já está mouco, mas eu agora vou, que é para ele se contrariar. Assim é que ele tem de aprender e íamos. Vínhamos de lá sozinhas às duas e três da manhã, logo no princípio eles não queriam isto, até onde é que andaste até estas horas.
O meu marido não teve outro remédio se não habituar-se, teve de se habituar. E as coisas evoluíram de uma tal maneira, quem é que ia às piscinas de mulheres velhas, quem é que vestia um fato de banho, está quieto, nem os maridos queriam, nem pensar em tal, elas não podiam andar com as pernas à mostra quanto mais um fato de banho. E então, houve as piscinas municipais, houve outra mil e uma coisa que a gente aderiu e a evolução das mulheres tornou-se uma coisa muito mais livre, nem tem comparação com o antigamente. Pois, então aqui em Portel viu-se, eu até dizia assim na brincadeira, desde que as piscinas foram feitas ainda não vi tanta mulher com as mangas à cava e com vestidos curtinhos. Também se aproveitaram um bocadinho daquilo, fizeram elas bem. Pois, e então foi assim.
Começamos a ter a nossa vida e agora todos os dias vamos ao café, vamos aonde a gente quer e tem vontade, porque a gente para se darmos ao respeito nem é preciso estar metidos em casa e a fazer as vontades, por isso é que hoje em dia a malta mais moderna mete-lhes as coisinhas na mala e mete-a à porta. As raparigas de hoje, eu não censuro as raparigas novas fazem isso. Não, não censuro, porque é assim, não se dão, cada um para seu lado. Está bem é bonito o casamento, é bonito o casamento, é bonito é bonito, mas aquilo também não somos nenhumas servas. Olha agora, estou há sessenta anos com o meu, mas também não tenho assim grandes, não tenho muita ofensa. Não tenho, porque o contrariei. Uma vez levei uma sova dele, porque eu tinha um grupo, tinha um grupo que era o Estrela Vermelha, e fazíamos assim coisas de teatro da minha cabeça, andávamos aí nas aldeias e então ele então onde é a volta. Vou para o Alqueva, os rapazes vão lá. Começamos a mandar vir um com o outro, era na festa da Páscoa, a minha sogra tinha feito uns bolos, mas tinha-os deixados malcozidos, ele apanhou um bolo daqueles e aventa-mo aqui e eu tinha os dentes a quererem apodrecer e eu mordo, com o dente mordo aqui o lábio, assim que eu vi o sangue, filha, eu disparatei. E agora vou, agora vou, agora vou aqui limpar a boca e vou ao Alqueva, estava destinado a eu ir ao Alqueva. E o pífaro não leva aqui a minha Maria Rosa, e passou aqui na minha rua e disse-me assim, ainda há bilhetes para o golfe, não é assim, ainda há bilhetes para o judo. Eu digo assim, este agora também me veio chatear a cabeça, o Zé Pombinho tinha um feitio dele. Não vás, não vou o quê, mas você é que manda? Você manda tanto como manda ele. Olha lá que dás cabo, quero lá saber e fomos, e fomos. Eu contrariava-o assim, ele já não se importa. Coitado, também já não quer saber de nada, agora diz-me assim, vocês estão a querer-se enganar, então vocês estão nas anedotas, pois não sei.

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

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